Neste mês o professor Newton da Costa celebra seu 90° ano de vida. Curitibano de nascença e dono de um enorme currículo nas áreas de filosofia e lógica matemática, ele lecionou na UFPR, na Unicamp e na USP até sua aposentadoria, vindo a seguir ...

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  1. Os 90 anos de Newton C. A. da Costa
  2. Yesterday, o filme
  3. A Águia pousou
  4. Observações sobre a entrevista de Jair Bolsonaro na GloboNews
  5. Prof. Eng. Arlei Bichels - in memoriam
  6. More Recent Articles

Os 90 anos de Newton C. A. da Costa

Neste mês o professor Newton da Costa celebra seu 90° ano de vida. Curitibano de nascença e dono de um enorme currículo nas áreas de filosofia e lógica matemática, ele lecionou na UFPR, na Unicamp e na USP até sua aposentadoria, vindo a seguir ocupar a cadeira de professor visitante na UFSC. Ele calcula também que suas estadas no exterior, como professor visitante, devem somar pelo menos uma década, em países como Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Austrália, México e Argentina e outros.

Tive a honra de conhecê-lo bem no início da minha vida de estudante do curso de Engenharia Industrial Elétrica do antigo CEFET-PR, hoje UTFPR, quando eu era monitor do Departamento de Matemática. Naquela época o professor Décio Krause estava cursando doutorado na USP. Depois de algum tempo, ele deve ter percebido que eu estava realmente interessado em matemática e física e me convidou para assistir algumas palestras do professor Newton.

Não me lembro exatamente da ordem daquelas palestras (isso foi há mais de 30 anos!), mas a primeira deve ter sido no CEFET-PR, várias outras na UFPR, um curso no Instituto de Estudos Avançados da USP e um seminário da Sociedade Paranaense de Matemática. Algumas outras palestras foram com o próprio professor Décio e uma outra com o professor Francisco Antônio de Moraes Accioli Dória, grande colaborador do professor Newton.

Para um estudante de engenharia, que imaginava que o nível mais avançado da matemática estava no cálculo diferencial e integral e que o nível mais avançado da lógica estava na álgebra booleana, utilizada em eletrônica digital, aquela enxurrada de conhecimento foi quase capaz de torcer meus miolos. Mas é exatamente isso que o professor Newton diz querer:  "A finalidade do professor não é transmitir certezas. Minha finalidade é criar caso, é embrulhar o caco da pessoa, é fazer com que ela pense criticamente por si mesma" [1]. Seus alunos também dizem que ele costuma iniciar algumas de suas palestras dizendo: "Vim aqui jogar a serpente no paraíso de vocês".

A criação mais famosa do professor Newton é a lógica paraconsistente, desenvolvida de maneira simultânea e independente pelo lógico polonês Stanisław Jaśkowski (1906-1965). O termo "paraconsistente" foi cunhado somente em 1976 pelo filósofo peruano Francisco Miró Quesada [2].

A lógica desenvolveu-se como o estudo das formas válidas de inferência (estudo da argumentação), mas, até a segunda metade do século 19, nunca havia acompanhado os desenvolvimentos da matemática. A partir de então a lógica começou a se transformar em uma disciplina essencialmente matemática, hoje ensinada nos cursos de matemática e nos cursos de engenharia elétrica e computacional.

A lógica clássica (ou tradicional) é a mãe das outras lógicas e baseia-se em uma série de princípios. Dentre os mais conhecidos estão:
  1. Princípio da identidade: todo objeto é igual a si mesmo.
  2. Princípio do terceiro excluído: dentre duas proposições contraditórias, uma delas é verdadeira (não há terceira possibilidade).
  3. Princípio da não-contradição: dentre duas proposições contraditórias, uma delas é falsa.
  4. Princípio da identidade proposicional: "uma vez verdadeiro, sempre verdadeiro; uma vez falso, sempre falso" (Russel).
Dentre as lógicas que se desenvolveram a partir da lógica clássica estão, por exemplo, a lógica modal clássica, a lógica clássica da ação, as lógicas intencionais clássicas, a lógica indutiva clássica, as lógicas paracompletas, as lógicas quânticas, as lógicas relevantes,  as lógicas paraconsistentes, etc. Além disso, qualquer estudante de Inteligência Artificial deve entender um pouco de lógica difusa (fuzzy) [2].

A lógica paraconsistente é uma lógica não-clássica que derroga o princípio da não-contradição. Se uma lógica contém alguma inconsistência, ela se torna trivial, ou seja, a partir de uma contradição, qualquer coisa segue. A característica definidora de uma lógica paraconsistente é que ela rejeita esse "princípio da explosão". O resultado é que as lógicas paraconsistentes, ao contrário das lógicas clássicas, podem ser usadas para formalizar teorias inconsistentes, mas não triviais.

Mesmo tendo origens puramente teóricas, as lógicas paraconsistentes encontram hoje aplicações em vários campos, tais como mecânica quântica, relatividade geral, inteligência artificial, engenharia de produção, controle de tráfego, robótica e até mesmo em ciências humanas, como a economia.

É esse o espírito da pesquisa acadêmica: ninguém sabe o que pode surgir. Talvez uma tese seja defendida e nunca mais citada, mas talvez se transforme em uma cornucópia. Nesse aspecto o professor Newton cita Jawaharlal Nehru, ex-primeiro ministro da Índia, para quem seu país era "tão subdesenvolvido que não podia se dar ao luxo de não apoiar a pesquisa básica em todos os setores". É por isso que a pesquisa não pode deixar de ser incentivada.

Outra paixão do professor Newton são os fundamentos da ciência, especialmente da física. Ele diz, por exemplo, que "a matemática e a lógica são apenas ferramentas para se entender o que é o conhecimento científico". A física pode ser entendida como uma série de teorias bem-sucedidas em suas respectivas áreas de aplicação, mas incompatíveis entre si. Um exemplo é o da física do plasma, que encontra várias aplicações e envolve outras três teorias: a mecânica clássica, o eletromagnetismo e a teoria quântica, todas elas incompatíveis aos pares. O professor Newton diz que não haverá solução para tais incompatibilidades a não ser que a lógica subjacente às teorias (que é sempre a lógica clássica) seja alterada [3].

Depois da minha formatura encontrei o professor Newton somente uma vez, quando ele veio a Curitiba fazer uma palestra sobre filosofia da ciência. Contudo, depois que você é picado pela serpente, fica muito mais difícil respeitar a ordem unida, fica muito mais difícil participar de embustes coletivos, mesmo quando reforçados pela participação de "famosos". A vida em si fica muito mais difícil, mas frequentemente mais divertida.

Referências:
1. Newton C. A. da Costa, "A lógica da física", palestra, 2009.
2. Newton C. A. da Costa et al., "Lógica Paraconsistente Aplicada", Editora Atlas, 1999
3. Neldson Marcolin, "Newton da Costa: Passion and contradiction", Pesquisa FAPESP, 2008

    

Yesterday, o filme

"Yesterday" (2019) é um daqueles filmes de realidade alternativa nos quais um mundo diferente é produzido por seres extraterrestres, por um "evento quântico" ou simplesmente por algo que não é explicado. Alguns críticos podem dizer que esse enredo não é nem um pouco original, mas, quando se trata dos Beatles, ou da ausência deles, esse deslize é facilmente perdoado.

Na realidade alternativa de "Yesterday", George Harrison, o mais novo dos Beatles, teria 76 anos e Ringo Starr, o mais velho, teria 79. Talvez eles até existam individualmente no filme, mas os Beatles nunca existiram, a não ser para Jack Malik, um cantor de boteco que desiste de sua carreira pouco antes de um apagão mundial, durante o qual ele é atropelado por um ônibus. Ao acordar em uma cama de hospital, ele descobre que, felizmente,  sua bicicleta ficou muito pior do que ele, apesar da falta de dois de seus dentes.

Depois de se recuperar, a primeira canção que ele toca a três de seus amigos é Yesterday, aproveitando para estrear o violão que sua "quase namorada" e empresária amadora lhe dá de presente. Todos ficam emocionados, mas nenhum deles conhece a canção.

Ao voltar para casa, Jack faz algumas pesquisas e descobre que os Beatles não existem nesse mundo (e nem o Oasis, por exemplo), embora os Stones existam. O filme também faz outras brincadeiras com coisas que teriam deixado de existir em um mundo sem os Beatles, algumas delas que muito provavelmente continuariam existindo e foram apenas um exagero dos roteiristas, mas das quais ninguém sentiria falta, como os cigarros, por exemplo.

Daí em diante o filme é uma espécie de montanha russa, na qual Jack se apropria das canções dos Beatles para alcançar sucesso em nível mundial e começa a se apavorar com isso. E, da mesma forma que o final de uma montanha russa é quase sempre previsível, o espectador também tem quase certeza de que os roteiristas usarão um final ao estilo “Deus ex machina” tão ao gosto de Hollywood: ou o personagem principal acordará e descobrirá que foi tudo um sonho ou então sofrerá outro acidente e tudo voltará ao normal, com ele e sua empresária mais amadurecidos e finalmente apaixonados. Felizmente nenhum desses finais é usado, o que fez os críticos do Rotten Tomatoes, por exemplo, concluírem que:

"Yesterday pode ficar aquém do esperado, mas o resultado final ainda é uma fantasia docemente encantadora com uma intrigante – embora um pouco subexplorada – premissa.”

Na minha opinião essa fantasia é tão doce que, ao menos durante a seção em que eu fui, era possível ouvir choros aqui e lá. Esses seres humanos são realmente muito estranhos.

E é isso que torna o filme imperdível.

Cuidado, spoiler abaixo!
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Um crítico mais duro poderia dizer que um filme que se encerra com o personagem principal e sua amada vivendo uma vida de Desmond e Molly, embora com ele provavelmente falido, não é nada mais do que uma comédia romântica. Mas um filme no qual o único dos Beatles a aparecer é um John Lennon aos 78 anos, vivendo uma pacata vida de artista plástico, é certamente imperdível!

    

A Águia pousou

Cuidado: "spoiler" abaixo.

Quando eu era criança meu pai tinha, dentre seus inúmeros livros, um pequeno, talvez de 150 páginas, encadernado em capa dura, que contava a história do programa espacial norte-americano e também uma parte do programa soviético.

O livro era maravilhosamente ilustrado e, depois de tanto percorrê-lo de um lado a outro, meus três heróis terráqueos passaram a ser Armstrong, Aldrin e Collins. É claro que Armstrong, tendo sido "o primeiro homem", era também meu principal herói. Eu me lembro que, quando eu tinha não mais do que 10 anos, em uma conversa qualquer com um coleguinha, eu perguntei se ele sabia quem era Armstrong e ele disse: "É um trompetista de jazz". Eu não disse nada, mas fiquei pensando: "que idiota, nem sabe quem é Armstrong".

Para uma criança não é necessário conhecer as dores e alegrias de um herói para passar a admirá-lo. Basta que ele seja capaz de fazer coisas que ninguém mais consegue fazer (mesmo que com o auxílio de outros milhares de pessoas, de alguns milhões de dólares e de outros detalhes). Mas é exatamente desnudar Neil Armstrong que pretende o filme "The First Man" (2018).

Neil, que ficou conhecido como um "herói relutante", é descrito no filme como uma pessoa fria e difícil, sem visão de marketing e capaz de responder perguntas da imprensa como "se o senhor pudesse levar algo para a Lua, o que seria?", com um curto "mais combustível". O filme dá a entender que essa aparente frieza de Neil foi necessária para que ele conseguisse pousar a Águia na Base da Tranquilidade. Será? Provavelmente não. Após a Apollo 11, mais cinco missões Apollo conseguiram pousar com sucesso na Lua, pilotadas por diferentes astronautas com várias personalidades. E, apesar de a Apollo 11 ter sido a mais perigosa, todas foram perigosas.

O filme gira bastante em torno da relação de Neil com sua esposa,  Janet Shearon. Juntos eles estão tentando superar a morte da filhinha Karen. Ao contrário de outros filmes, que mostram as esposas dos astronautas como heroínas, mas apenas do tipo que ficam em casa torcendo para que tudo dê certo, este mostra as angústias de Janet  mais de perto e como ela tenta de certa forma dissuadir Neil e mostrar que na verdade "nada está sob controle", ao contrário do que a equipe da NASA acredita.

Após o lançamento do Saturno 5 (e garanto que tudo fica muito mais emocionante em 4D), os efeitos especiais tomam conta do filme. O primeiro "passo na Lua" é mostrado em detalhes, assim como Neil pronunciando aquela frase que, como outras, ficou impressa no livro da humanidade. Contudo, para mim a frase do primeiro passo sempre pareceu ensaiada e mais humilde do que deveria ser. Talvez Neil não estivesse em condições de pensar em algo melhor, mas em vez de dizer "... um grande passo para a humanidade", muitos americanos certamente gostariam que ele tivesse dito: "aqui pra vocês, soviéticos!".

O grande ato de heroísmo de Neil não foi ao pisar na Lua e pronunciar uma frase que renderia batalhas judiciais depois. O grande ato foi pousar na Lua, quase sem combustível, após ter assumido o controle manual, ultrapassar o local inicialmente previsto e pousar em um local mais seguro. Assim, a frase que descreve melhor a missão Apollo 11 foi aquela dita por Neil após o pouso, quando todos já haviam recuperado o fôlego: "Houston, aqui Base da Tranquilidade. A Águia pousou".

Pouco antes do lançamento do filme um senador ficou sabendo que a cena da bandeira norte-americana sendo espetada em solo lunar não seria mostrada em detalhes. O diretor do filme, Damien Chazelle, disse então que a bandeira estava lá, mas que ele preferiu dar ênfase a outros aspectos. Ao ficar sabendo da controvérsia, Trump teria dito: "É quase como se eles estivessem envergonhados com essa realização dos Estados Unidos e eu acho que isso é uma coisa terrível. Quando você pensa em Neil Armstrong e quando pensa no pouso na Lua, pensa na bandeira americana. Por essa razão, eu nem quero assistir ao filme". Uma declaração racional e refletida de Trump, como muitas outras.

O filme não mostra o retorno à Terra, que foi mais perigoso do que a ida à Lua. Em vez disso, os astronautas aparecem já em terra, entrando em quarentena. Pouco depois Neil e Janet aparecem se acariciando através da janela de vidro da câmara de quarentena. Nenhuma palavra é dita, e talvez nem precisasse.
    

Observações sobre a entrevista de Jair Bolsonaro na GloboNews

Seguem-se algumas observações minhas, já publicadas na minha página do Facebook, sobre a entrevista de Bolsonaro na GloboNews.

1. Teria sido mais elegante se o candidato tivesse cumprimentado os jornalistas e o público antes de começar a falar. Mas tudo bem.

2. "Eu estou cumprindo uma missão de Deus (porque sou cristão)". Ui, essa doeu! Pior que isso só o Lula, que se compara a Jesus Cristo.

3. "Não tenho obsessão pelo poder." (??) Ué, então por que não se candidata somente a síndico?

4. "Eu sei fazer derivada, sei fazer integral, sei calcular um tiro de barragem..." hehe, dessa parte eu gostei. Resta saber como isso vai ajudar na área de macroeconomia.

5. Um entrevistador pergunta: "e se acontecer alguma coisa com o Paulo Guedes (provável Ministro da Fazenda no caso da eleição de Bolsonaro), se ele ficar doente...?" Cá entre nós, caro entrevistador, esse pergunta foi ridícula!

6. Devemos investir em tecnologia e pesquisa, não só em commodities", diz ele. Gostei.

7. "A China não está comprando 'no' Brasil. Ela está comprando 'o' Brasil. Algum tipo de protecionismo será necessário". Bem, a China está comprando empresas de energia elétrica, por exemplo, apenas por que o Brasil não têm mais dinheiro para isso. Se não deixarmos a China comprar as empresas, uma vez encerradas as concessões, o governo teria que comprá-las com recursos do Tesouro, que poderiam (deveriam) ser usados para outros fins.

8. Ele diz que a Zona Franca de Manaus, aquela aberração criada por um espírito maligno, será mantida. Estranho, ele se diz liberal mas defende subsídios?

9. "Me apresente algumas grandes obras do governo militar de lá para cá!" Êpa, candidato! Tivemos, por exemplo, obras de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica capazes de suprir o enorme crescimento da demanda desde então. Outros exemplos existem aos montes.

10. "Se não tiver outro jeito para a Petrobrás a solução é privatizar". Quem sabe seja uma boa.

11. Banco do Brasil, Caixa Econômica e Correios permanecerão estatais. Também pode ser uma boa estratégia, especialmente porque a privatização desses dois bancos mergulharia o país em uma sequência de greves com resultados piores do que os da greve dos caminhoneiros.

12. O senhor acha que feminicídio é um "mimimi"? Ele é muito contraditório nessa questão. Confunde assassinato de mulheres (por um bandido, por exemplo) com feminicídio, que é o "assassinato de mulheres por homens apenas pelo fato de serem mulheres".

13. "Eu nunca fui homofóbico. Ué, o que eu tô fazendo aqui!" (???) Não entendi. Isso foi uma piada?

14. "Eu não sou homofóbico", diz ele outra vez. Mas há uma entrevista de Bolsonaro com Stephen Fry onde Bolsonaro deixa isso muito claro: https://www.youtube.com/watch?v=o3ZBeX9uC8s . Há vários outros vídeos sobre isso.

15. Perguntado sobre a imoralidade ou não do auxílio moradia, quando o político já tem moradia, Bolsonaro reverte a perguta ao entrevistador: "Me diga uma coisa, vocês aqui na Globo recebem como PF ou PJ? Isso também não é imoral?" Uma típica falácia da inversão dos fatos. Aqui fica claro que ele não deixará que os políticos abram mão tão facilmente de direitos já estabelecidos.

16. Cá entre nós, os jornalistas deveriam saber que Bolsonaro havia entrado na sala com a questão do Roberto Marinho na manga.

17. Ele foge da questão da tortura. Primeiro diz que está na lei que ela é proibida. Depois diz que em alguns casos seria a última forma de extrair uma confissão de alguém (de um sequestrador, por exemplo).

18. Educação: "O que nós estamos formando hoje em dia são militantes de esquerda." Êpa, mas que bobagem é essa? Ele está falando da área de humanas? E o resto? E como o Brasil poderá viver "sem viés ideológico" se a esquerda não existir?

19. No momento ele sairia do Acordo de Paris (redução das emissões de gases de efeito estufa). Será que há alguma influência do Trump aqui?

20. Manteria o Bolsa Família, com responsabilidades.

21. Ele insiste que o pensamento de que as mulheres devem ganhar menos do que os homens não é dele. São os patrões quem pensam assim. Tudo bem, isso é verdade, mas se elegermos para Presidente um sujeito que admite de antemão que não fará nada nem mesmo para tentar mudar parcialmente a realidade, é melhor eleger o Tiririca.

22. Ele gosta do Trump, pois Trump está fazendo a "América grande" (apoiar o Trump já é motivo suficiente para que eu não vote no Bolsonaro).

23. Porte de armas: ele continua insistindo na falácia da comparação entre Brasil e EUA. Por que ele e seus correligionários não fazem uma comparação, por exemplo, entre Brasil e Japão?

24. Ele insiste em querer um Brasil sem viés ideológico (a não ser o viés dele, é claro).

25. A declaração do Grupo Globo ao final da entrevista, transmitido por Miriam Leitão com um ponto eletrônico no ouvido, foi realmente deplorável. Teria sido mais inteligente não ter tentado apagar o fogo com gasolina.
    

Prof. Eng. Arlei Bichels - in memoriam


Quando passei no concurso da Copel, no final de 1994, me ofereceram duas vagas: uma na área da manutenção da Transmissão, que exigia viagens constantes, e outra no Planejamento da Geração, que exigia poucas viagens. Escolhi a Geração, para não prejudicar muito minha carreira de professor no CEFET-PR (UTFPR, a partir de 2005).

Ao chegar ao escritório descobri, com certa surpresa para um Engenheiro Eletricista, que todos naquela área eram Engenheiros Civis. O gerente então me disse que a ideia deles era que eu servisse como uma espécie de "interface" entre as áreas de Planejamento da Geração e Planejamento da Transmissão. Ao ser apresentado aos Engenheiros da Transmissão descobri que um dos mais graduados era o Arlei Bichels, meu colega no Departamento Acadêmico de Eletrotécnica (DAELT) do CEFET-PR e meu conhecido de longe desde que eu era aluno do curso de Engenharia. Durante algum tempo pensei em mudar para a Transmissão, mas isso não é fácil para um recém-contratado e tive que desistir.

O Arlei entrou na Copel em 1971, logo após ter se formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Paraná. Na mesma época foi contratado como professor 20 horas pela antiga Escola Técnica Federal do Paraná, que viria a se transformar em CEFET-PR em 1978, quando os cursos de Engenharia foram criados. No início ele era professor do curso técnico de Eletrotécnica, depois passou a lecionar para o curso de Engenharia.

A ideia de que eu atuasse como interface entre a Geração e a Transmissão nunca deu certo, por falta de treinamento e outras razões, mas essas áreas ficaram em contato físico durante alguns anos e eu permaneci em contato com o Arlei em modo extraoficial. Ele era um sujeito ligado no 380 V, de todas as formas. Por vezes isso era um problema, pois tomávamos o mesmo ônibus e de vez em quando eu o encontrava de manhã, na ida para a Copel, ele com dois metros de perna e eu com meu meio metro. Embora meu condicionamento físico fosse muito melhor naquela época, eu chegava ao escritório um pouco suado e tinha que relaxar por alguns minutos.

Em algum ponto descobri que os armários dele escondiam periódicos do IEEE. Aquilo foi como a parábola do rato na fábrica de queijo. Muito embora o curso de Engenharia do CEFET-PR fosse tido como um dos melhores, ele era mais direcionado para a indústria (de fato, o curso era denominado "Engenharia Industrial Elétrica") e eu me formei sem ler um único paper do Institute of Electrical and Electronics Engineers. Se eu tivesse sido aluno do Arlei, talvez isso tivesse acontecido, mas ele estava de licença justamente no semestre em que eu viria a ser aluno dele. Hoje qualquer um que tenha acesso ao portal de periódicos da Capes pode baixar tudo o que quiser do IEEE e de outras bases, mas, antes da internet, tudo era impresso e aproveitei para tirar cópias de muita coisa que me interessava.

Alguns anos depois houve uma mudança na Copel, várias áreas foram unidas, outras separadas e algumas enviadas para o famoso km3. Meu contato com o Arlei foi reduzido na Copel, mas continuou no CEFET-PR. Ele continuava viajando e de vez em quando me pedia que eu o substituísse nas aulas de Sistemas Elétricos de Potência (SEP). Isso não era difícil, pois ele transformava essas aulas em exercícios para os alunos e me dava os gabaritos. O estranho é que ele queria me pagar por isso, mas eu tentava dizer: "Você não precisa me pagar, pois substituições já estão previstas no meu salário". Mas ele dizia que tinha feito as contas de quanto aquelas aulas valiam, fazia o pagamento em dinheiro e não aceitava minha negativa.

Ele se aposentou da Copel em 1999, com 28 anos de serviço, e assumiu o cargo de Diretor de Novos Negócios na Tradener, a primeira Comercializadora de Energia Elétrica brasileira, cujo sócio majoritário na época era a Copel. Na verdade, ele ajudou a fundar a Tradener. Em 2001 ele resolveu se aposentar também do CEFET-PR. Me lembro com detalhes de uma noite em que dei uma carona a ele até sua residência, ele me deixou todo seu material impresso de SEP, juntamente com os arquivos magnéticos, e me disse: "Estou deixando todo esse material para você usar nas suas futuras aulas. Cuide bem dele". Não tive coragem de dizer a ele que não pretendia lecionar SEP, mas as coisas mudam. Não só acabei lecionando essa disciplina como, vários anos depois, cursei um mestrado na área. Só agora percebi que, por absoluta imbecilidade e falta de memória, me esqueci de incluir o nome dele nas dedicatórias da minha monografia!

A possível privatização da Copel fez a empresa tentar reduzir ainda mais seus custos por meio de um Plano de Demissão Voluntária (também conhecido como "sopão"). Resolvi aderir ao plano, passar meu contrato no CEFET-PR para 40 horas e me dedicar parcialmente ao desenvolvimento de software, especialmente software para a internet. Um dos meus primeiros clientes foi a Tradener. Eu entrava na sala do Arlei toda vez que ia lá e certa vez perguntei o que ele achava das perspectivas para o Setor Elétrico. Ele respondeu, rindo um pouco: "As piores possíveis!". Outras pessoas talvez tivessem tentado suavizar um pouco a situação, mas ele estava certo em um ponto: o "efeito Lula" fez o dólar e o IGPM dispararem e as pessoas que viviam de aluguel, como eu, entraram em uma fria.

Meu contrato com a Tradener acabou, mas o Claudio Alves, um físico que havia me convidado para desenvolver o site da Tradener, me chamou para prestar serviços na Comercializadora que ele estava abrindo, a Electra Energy. Por causa da atuação na mesma área, mesmo que em lados opostos, meu contato com o Arlei continuou, mas dessa vez geralmente por telefone ou e-mail. De vez em quando nos encontrávamos também em algum congresso ou seminário. A última vez que o vi foi no SNPTEE, o Seminário Nacional de Produção e Transmissão de Energia Elétrica, em Curitiba, em outubro de 2017.

Por volta de 2015 ele deixou definitivamente a Tradener e passou a se dedicar somente à própria empresa, a SisEletro Consultoria em Engenharia, que havia fundado em 1999. Ele tinha então 67 anos, aquela idade em que muitos com certa graduação já se aposentaram há anos. De vez em quando eu ficava sabendo pelos meus alunos que ele estava contratando estagiários da UTFPR, ajudando-nos a resolver esse problema acadêmico que fica mais grave em épocas de dificuldades econômicas.

Essa perda de contato foi uma pena. Não sei se ele poderia ter aprendido algo comigo (como correr mais devagar para pegar um ônibus, talvez), mas eu certamente poderia ter aprendido algo mais com ele.

Que ele fosse um sujeito multitarefas todos sabíamos, mas ninguém do DAELT com quem conversei sabia que ele se dedicava ao paraquedismo esportivo. Infelizmente, ficamos sabendo disso da pior forma: depois de 45 anos de saltos, ele sofreu um acidente fatal.

Alguns jornais noticiaram o acidente como "Paraquedista de 70 anos morre durante um salto em Paranaguá" ou "Senhor de 70 anos pula de paraquedas e morre na queda em Paranaguá". Só agora me dei conta do que algumas pessoas podem ter pensado com essa manchete: um paraquedista velhinho e um pouco corcunda, dando seu primeiro salto duplo ou coisa parecida. Não foi nada disso.

Segundo o Albatroz, o Arlei chegou ao Aeroclube do Paraná aos 25 anos de idade, em fins de 1970, "muito branco, altíssimo, loiro, e foi logo irreverentemente apelidado de 'Cobra-d'água'". Era alvo de brincadeiras dos colegas, que diziam que seu peso seria insuficiente para abrir o paraquedas, mas foi aos poucos obtendo o respeito e a admiração de todos. Com o tempo ele assumiu a diretoria geral do Albatroz e, para aprimorar seu treinamento, adquiriu um paraquedas "Papillon", francês, fabricado especialmente para saltos de precisão, e hiper sustentável com 28 pés de diâmetro. O "fino em paraquedas", segundo dizem. Em 1976 já era membro da União Brasileira de Paraquedismo.

Logo após o acidente, em 23 de junho de 2018, circulou a notícia de que ele poderia não ter aberto o paraquedas de forma adequada, mas seus colegas não acreditam nisso. De acordo com o personal trainner Walter da Silva, companheiro de alguns saltos com o Arlei desde a década de 70, "ele era um cara extremamente inteligente e cuidadoso. Não era um maluco. Era muito consciente, estava bem fisicamente e com documentos em dia. Foi uma fatalidade que pode acontecer com qualquer um de nós". De fato, agora a principal hipótese não é erro humano, mas sim que o paraquedas tenha apresentado algum defeito.

Nos últimos anos o Arlei estava escrevendo seu próprio livro de SEP, o qual será publicado pela Editora da UTFPR. Só é uma pena que ele não irá vê-lo.

Aproveito para enviar minhas condolências a todos os amigos e familiares.
    

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