O mestre de obras apareceu na porta do escritório, de chapéu apertado nas mãos e lábios preocupados no semblante. Nem sabia como contar para o arquiteto que alguém fazia uma casa dentro da casa que ele fazia. Uma corruíra, passarinho pequeno, ...

Your email updates, powered by FeedBlitz

 
Here are the FeedBlitz email updates for contato@mariopersona.com.br



Negocios preservados and more...

Negocios preservados

O mestre de obras apareceu na porta do escritório, de chapéu apertado nas mãos e lábios preocupados no semblante. Nem sabia como contar para o arquiteto que alguém fazia uma casa dentro da casa que ele fazia. Uma corruíra, passarinho pequeno, marrom e alegre, resolvera se aninhar no buraco do andaime na parede de um dos quartos. O que fazer?

O arquiteto era meu primo, desses primos que a gente sabe que tem, mas só vai conhecer quando precisa de um favor. E foi por precisar de um emprego que o procurei. Até então me sujeitara a dois estágios, não-remunerados, nos bastidores de outros escritórios de arquitetura. Só para respirar a atmosfera de uma profissão que eu pensava conhecer. Nem sabia o que era um cliente, ou que era uma espécie inteligente. Muito menos, que estava sujeita à extinção.

Trabalhar ali foi descer do Olimpo acadêmico, onde eu sorvia ideologia, para o rés do chão, do cliente e do dia-a-dia. Foi minha chance de aprender que, na teoria, a prática é outra. E o contrário também. E ambas as coisas. Porque atender o cliente — eu iria descobrir — é deixar de enxergá-lo como intruso em minha obra. Como a corruíra que, em minha opinião pueril, devia ser despejada sem pena. Mas eu estava ali para aprender, e aquela seria minha lição de preservação.

O arquiteto chamou o pedreiro e deu asas a um plano rápido no ar. O andamento da obra não seria alterado por causa da corruíra. Nem sua gravidez interrompida. Terminariam o quarto por último, o quarto da Corruíra, agora com "C" maiúsculo. Começava uma ação de preservação que transformaria meia dúzia de pedreiros em atendentes da maternidade improvisada no buraco da parede. Uma insanidade, numa época quando ninguém falava em preservar o meio ambiente. Que ainda estava quase inteiro.

O que ontem era estranho, hoje é padrão. Até empresas sem alma se preocupam em preservar. Por motivos racionais, nem ambientais, nem sentimentais. É simples: se não sobrar ambiente, não sobra cliente. Preservar o natural e investir no social é condição essencial para manter a atividade comercial. Sem clientes saudáveis e abonados, os negócios estão condenados. Quem não enxerga isso mata a vaca leiteira.

Consciência sócio-ambiental virou zelo patrimonial. Coisa de profissional, sem os chiliques de minha juventude de pretenso intelectual. Quem sabe que deve preservar o mercado leva em conta a necessidade de sobrevivência de todas as espécies. Do arquiteto à corruíra, do investidor ao investido. Com os pés no chão, sem parar a obra, nem expulsar o passarinho. Adaptação. É o que preciso aprender, mesmo que seja a duras penas.

Infelizmente é inevitável sentirmos a morte de algumas espécies. Sentimental eu sou, mas não sou demais. Sentimentalismo barato põe tudo a perder. Como vi uma turista fazer, ao tentar ajudar tartaruguinhas recém-nascidas em sua corrida rumo ao mar. Atrasou a maratona, atraiu as gaivotas, e a ninhada virou jantar.

Assim também, preservar dinossauros em uma economia combalida seria uma catástrofe cinematográfica. Tudo mudou e não há mais lugar para lagartixas de vinte toneladas. Sejam elas empresas, estratégias ou profissionais como você e eu.

Incluo-me entre os dinossauros. Personasaurus Rex. Enxergo-me como lixo, na minha idade. Mas reciclado, e pronto para nova utilidade. Só não posso parar de voar, ou descobrem minha idade. Se não me reciclar e reinventar, algum garoto mais dedicado e turbinado me põe na rua. Aí é esperar o caminhão passar, porque não quis me adaptar. Não importa quantos anos eu tenha de janela, se esta permanecer fechada, não vou conseguir voar.

Para que pudesse voar, a Corruíra tinha a janela de seu quarto sempre aberta. As paredes estavam rebocadas, exceto por uma pequena área ao redor do buraco de onde pendiam algumas palhas. Quem construía com tijolos e cimento adaptara o seu ritmo àquela que chocava seus rebentos.

Enquanto isso, eu aprendia. O respeito do mais forte pela necessidade do mais fraco. Longe das páginas dos jornais e das reportagens especiais, alguém fazia uma diferença naquilo que podia fazer. Até as três bolinhas de plumas conseguirem voar pela janela, guiadas pelo trinado da orgulhosa mãe. Então o buraco foi fechado, a obra estava terminada.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


© Mario Persona  - Quer publicar Mario Persona CAFE em seu blog? Não se esqueça de colocar um link apontando para www.mariopersona.com.br .
    



E' mito ou minto?

Por que no Brasil vemos políticos que são réus de crimes sendo paparicados por alguns como se fossem santos? Por causa do mito. O marketing estuda a essência do comportamento humano, as necessidades, desejos e expectativas de pessoas que funcionam à base de combustíveis tangíveis, mas também de intangíveis, como estima e auto-realização. Já viu automóvel Flex-Fuel? Somos assim. E em nosso tanque cerebral há lugar para um aditivo poderoso: o mito.

A imprensa intelectual pode denunciar os companheiros satélites de um presidente, a sociedade pode execrá-los. Mas o presidente fica incólume porque é um mito. Seus correligionários são ridicularizados por um pingo de dinheiro na cueca, mas o presidente pode tomar banho de champanhe fumando charuto cubano, vestir Armani ou beber Romanée Conti que será aplaudido.

Não é uma questão de certo ou errado, é uma questão de mito; de ser o retirante que virou presidente com todas as mordomias que acompanham o sonho, não importa o preço. Mito barato não é mito. O mito não deixa barato.

Mito é o inacessível que todos querem ser ou ter. Sua força não está numa ascensão lógica, mas na ausência de uma explicação para ter chegado lá; está numa conjunção de fatores mágicos. Toda Argentina tem sua Evita, toda Inglaterra tem sua Diana. Do nada para o tudo.

Assim é Luke Skywalker, adorado mesmo sendo filho de Dart Vader. Assim é Frodo, pequeno, pobre e frágil, conquistando poder e glória sem medida. Assim são as novelas da Cinderela pobre que encontra o príncipe e são felizes para sempre no luxo e opulência. Ou você acredita que um presidente que virasse operário seria admirado? É o contrário que faz o mito.

Nada de novo aí, é como funciona a mente humana. O sucesso que pode ser explicado pela lógica não atrai. Gibis de super-heróis nasceram na grande depressão norte-americana. Não eram heróis porque trabalharam, empreenderam, fizeram academia para desenvolver o físico. Nada disso. Aconteceu uma mutação, um raio cósmico, uma mágica e... "Shazam!", saíram voando.

O mecanismo do mito é o mesmo do bispo cujas malas de dinheiro são tiradas do teto do templo de helicóptero. Propaganda negativa para sua igreja? Nada, propaganda positiva. Uma organização que atrai pessoas menos interessadas na salvação de suas almas do que na salvação de suas finanças jamais seguiriam pastores pobres que viajassem de ônibus com moedas no bolso. Querem ver mesmo helicóptero voando endinheirado.

O mito precisa mostrar a opulência que seus seguidores sonham um dia experimentar. Quem sonha em viajar de jato executivo com malas de dinheiro vai admirar quem viaja assim. Quem sonha em ter uma conta na Suíça ou no Caribe não está preocupado com a origem do dinheiro. É só explicar que foi uma benção de Deus. A imprensa e seus intelectuais podem discordar e espernear, enquanto tomam chopp no boteco ao lado do teatro de papo-cabeça, mas mito é assim.

Mas então por que o povo baba de alegria quando vê um milionário ou empresário sendo condenado? Porque não encarceraram um mito. Empresários não ascendem por mágica. Só admira empresário quem não se enxerga muito longe de lá. Quem se vê a anos luz do sucesso, só admira quem chega lá tomando "Shazam!", por um desígnio dos deuses, um oráculo do Olimpo. Não por empreender, mas por "Um Dia de Princesa" de programa de TV.

Se os faraós não fossem mágicos e não gastassem pirâmides de dinheiro, não seriam venerados pela plebe. Veja a queda da Bastilha e da monarquia francesa. Não teria aquilo demonstrado que a burguesia tem mais é que beijar o tatame? Ora, aquilo foi um mero intervalo para os comerciais na história da humanidade. Quando um mito cai, outro ocupa seu lugar. Veja o que li num site de história:

"Entre 1799 e 1815, a política européia está centrada na figura carismática de Napoleão Bonaparte, que de general vitorioso se torna imperador da França, com o mesmo poder absoluto da realeza que a Revolução Francesa derrubara."

Como diria o carnavalesco Joãozinho Trinta: "Pobre gosta de luxo; quem gosta de pobreza é intelectual".

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


© Mario Persona  - Quer publicar Mario Persona CAFE em seu blog? Não se esqueça de colocar um link apontando para www.mariopersona.com.br .
    



GREVE GERAL! So' vou se nao precisar trabalhar...

Devo admitir que aderi à greve. Neste momento todas as minhas vias nasais estão tomadas de manifestações de muco, enquanto ataco quem passa perto com spray de micróbios. Não vi se algum policial me borrifou com pimenta, mas meus olhos lacrimejantes dizem que sim. Sinto-me como quem apanhou de cassetete e levou bala de borracha na testa. Se eu revidar, esses glóbulos brancos fascistas e batedores de panela vão saber o que é bom pra tosse!

Hoje nem pensar em trabalhar, mesmo que o muco em meu nariz insista em exercer seu direito democrático de ir e vir. Estou rouco de tanto protestar e minha bandeira é a favor dos frascos e comprimidos. Caminho resoluto de braços dados com Seu Biom e Dona Coristina. Fui tomar uma colher de CLT mas alguém tirou o vidro do armário. Direitos trabalhistas? Embrulha os direitos e fique com os trabalhistas que não me interessam. Reformas também não. Sou alérgico ao pó.

Meus pulmões — o de esquerda e também o de direita, que trabalham em sincronia — estão ocupados por manifestantes acampados em seus alvéolos. Hoje à noite vai ser canja sorver meus direitos quando eles vierem de colher. Canja de mortadela e papelão acompanhada de pão. Nem me convide para o feriado num triplex na praia ou sítio no interior. Não tenho forças nem para passear de pedalinho. Banho hoje só se for de canhão de água de Brucutu ou bem rapidinho, na lava-jato.

O espelho me diz que sou vermelho e o sofá me convida a viver ali no bem-bom sem trabalhar. Vou passar o dia vigiando a influência nefasta da "TV Globo" que logo deve mudar sua marca para "TV Plana". Na tela, um manifestante sem teto e sem terra atira um coquetel molotov num ônibus. Não se preocupe, ele não vai voltar para casa andando. Quem vai voltar assim é trabalhador que teve o dia descontado. Manifestante anda de Hilux. O que mais vejo na telinha é sindicalista uniformizado trabalhando a todo vapor. Não aderiu à greve, meu filho?

Se você for da turma do "vem pra rua", devo alertar que o que mais tem hoje no país é gente que foi pra rua. Tá todo mundo na rua. E se acha uma heresia eu brincar com sua causa, sua foice e seu martelo, ferramentas que em toda a sua vida você só viu em bandeira em dia de baderna, saiba que existem duas armas imbatíveis em qualquer manifestação: comunicação e humor. Um escritor precisa ser destro em ambas (Oops! Eu disse destro?! Perdoe-me!).

A comunicação (ou a falta dela) é o que começa e termina guerras. Entre uma coisa e outra é que caem as bombas. O humor magnifica a absurdidade de certos comportamentos, e as charges estão aí para provar. Você poderia escrever a história absurda da política de um país só com charges. Mas às vezes é possível encontrar até um político com humor.

Lembro-me de Jânio Quadros, quando seu gabinete foi tomado por manifestantes de uma greve dos Correios. Inteligente, jogou por terra a exaltada prepotência do líder do movimento, ao perguntar: "Qual sua função nos Correios?". O moço encheu o peito e respondeu: "Sou carteiro!". "E gosta de sê-lo?", arrematou o homem da vassoura. O século seguinte foi de silêncio na sala enquanto os neurônios manifestantes tentavam processar o que tinham acabado de ouvir.

Mas no meu caso são meus neurônios que pedem um chá de gengibre com mel e limão para continuarem funcionando. Então, como um genuíno manifestante doente de esquerdopatia crônica debilitante, hoje só quero direitos, nada de deveres. E amanhã também. Mas não pense que abri mão de minha ideologia. De jeito nenhum. Tomado de um sentimento comunista estou disposto e pronto a dividir tudo com todos. Dou um vírus para você, outro para você, outro para você...

IGUALDADE PARA TODOS! MINHA GRIPE UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA!

A imagem pode conter: 1 pessoa, texto

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

© Mario Persona  - Quer publicar Mario Persona CAFE em seu blog? Não se esqueça de colocar um link apontando para www.mariopersona.com.br .
    



Dia Internacional da Menina e do Machao

Não existe "Dia Internacional da Menina e do Machão"? Então acabei de instituir. Vem antes do "Dia Internacional da Mulher" porque para que uma mulher seja mulher ela precisa ser menina. Se não for menina, não continuará sendo mulher. E o machão, onde entra? Em lugar nenhum. Ele sai, porque hoje o dia é dela, e ele odeia isso.

Sabe como eu sei que mulheres são meninas? Porque observei uma. Que idade tinha? Cavalheiros jamais se lembram da idade, só a data de aniversário. Vi quando pegou uma Barbie esquecida num sofá. O que fez? Deu uma arrumadinha nos cabelos da boneca. Meninas de todas as idades continuam fazendo assim. Continuam sendo meninas, mulheres e mães.

Como foi Ruth Handler, que só inventou a Barbie porque viu a filha Barbara brincando com bonecas adultas de papel. "Menina quer ser mulher", pensou ela com seu lado menina antes de colonizar o mundo com mais de um bilhão de bonecas que mulheres de todas as cores, idades e tamanhos continuaram pegando e arrumando os cabelos. Enquanto as feministas arrancavam os próprios.

Barbie foi o protótipo do sonho de modelo que existe em cada menina. Ao contrário do que os machões pensam sobre modelos — profissão que virou resposta-padrão de algumas belas sem profissão — mulheres podem ser lindas e inteligentes como a austríaca Hedwig Eva Maria Kiesler. Não sabe quem é? Nome artístico Hedy Lamarr. Ainda não? Aquela atriz de Hollywood que faz tocar seu celular. Se você não se lembra da Dalila do épico de Cecil B. DeMille deve ser mais novo. Mas talvez tenha visto a embalagem do CorelDraw 8. É a cara dela.



Pois é, foi atuando em Hollywood durante a 2ª Guerra que ela inventou um sistema de alteração contínua das frequências de rádio para guiar torpedos e evitar a interceptação pelo inimigo. A tecnologia é hoje utilizada nas bombas inteligentes e em ligações via celular, sejam seus donos inteligentes ou não. Hedy Lamarr era inteligente o suficiente para saber ser bela:

"Qualquer garota pode ser glamorosa. Basta ficar imóvel e parecer burra." — disse ela.

Infelizmente é o que algumas fazem, belas ou não. Gastam a vida imóveis e inúteis, como limpador de pára-brisa quebrado em dia de chuva. Por sinal, também inventado por uma mulher, Mary Anderson. Você, machão, que acha que mulher é sinônimo de burrice, experimente dirigir na chuva sem limpador. Você teria inventado? Sei... e colocado do lado de dentro do pára-brisa, não é? Só para responder com uma piada tão velha quanto aquela que você gosta de contar.

Que piada? Aquela da loira que usou Liquid Paper na tela do computador. Você conta como se soubesse o que é Liquid Paper, não é machão? Quem sabe escrever conhece. Também foi invenção de uma mulher, Bessie Nesmith, secretária que ofereceu aos homens de gravata preta e camisa branca da IBM seu invento. Como eles torceram o nariz e acharam a coisa inútil, ela vendeu os direitos para a Gillette por 47,5 milhões de dólares. Tudo isso enquanto machões e meninas imóveis faziam pose por aí. Depois dessa vai ter machão querendo me matar. Vou andar de colete à prova de balas feito de Kevlar, material inventado por Stephanie Louise Kwolek. Exatamente, uma mulher também é responsável por segurar as balas antes que atinjam o coração de soldados e policiais.

As mulheres inventaram também outras coisas para a alegria dos homens. Eu disse 'outras coisas', machão, estou falando de objetos, invenções... Para os que gostam de ajudar a mulher com o bebê — você nunca fez isso, não é machão? — mas se atrapalham com as dobras da fralda e o alfinete de segurança, Marion Donovan inventou a fralda descartável. E para quem quer manter distância da pia da cozinha, e geralmente consegue por causa da barriga, Josephine Cochran inventou a máquina de lavar louças. Viva a mulher!

Acho que vou parar por aqui. Em minhas pesquisas encontrei outras invenções femininas na química, física e biologia, mas é melhor não arriscar tentar explicar e comentar porque eu mesmo não entendi direito para que serviam essas invenções. Talvez por ser homem. Mas acho que já deu para mostrar minha admiração pelas mulheres e também o que acho dos Rambos que existem por aí, que humilham e espancam. Só no Brasil, a cada minuto quatro Rambos provam no rosto de uma mulher que sabem dar coices e patadas.

Houaiss define "machão" como "aquele que tem coragem, que é capaz de enfrentar qualquer empreendimento difícil e perigoso; valentão diz-se de ou homem agressivamente viril, que se mostra excessivamente orgulhoso de sua condição masculina". O que o Rambo não sabe é que, no campo de batalha, o brado mais comum na boca dos bravos moribundos é "Mamãe!".

* * * * * 

"Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida.

Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão, levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços. Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite: estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca.

Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado. Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura. Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra. Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores.

A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro. Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua. Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça. Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva. Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente!
Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada."


Rei Lemuel, contando o que aprendera com sua mãe e citado em 950 a.c. pelo Rei Salomão no Livro de Provérbios cap. 31.
Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

© Mario Persona  - Quer publicar Mario Persona CAFE em seu blog? Não se esqueça de colocar um link apontando para www.mariopersona.com.br .
    


O planeta de onde eu vim

Quando pequenos, meus filhos foram criados em outro planeta chamado "Trinta Anos Atrás". Orbitando em torno de um sol semelhante ao que aquece o planeta Terra, as condições de temperatura e pressão lá eram bem diferentes. O clima era mais ameno e seus habitantes sofriam menos pressão, vivendo em uma atmosfera rarefeita de poluentes morais, degradantes e mortais.

O planeta onde meus filhos foram criados era bem primitivo. Lá não existia celular, Internet, touch screen, e-book ou rede social. Porém já era mais avançado que o planeta onde meus pais me criaram, o planeta "Sessenta Anos Atrás". Lá o leite era de vaca em garrafas de vidro e o plástico era novidade. Meus brinquedos eram de madeira ou lata, eram movidos a pilhas de calorias e o controle remoto era conhecido como "barbante".

Quando eu era pequeno a distância cultural entre mim e meus pais era insignificante. As músicas eram praticamente as mesmas, e roupas e calçados infantis eram simplesmente miniaturas da moda usada pelos adultos, que tínhamos orgulho de imitar. Já tínhamos TV no planeta "Sessenta Anos Atrás", mas não em cores, e a programação começava às cinco da tarde. Antes disso eu brincava com outras crianças no mundo real, pois não existia o virtual. Às nove da noite todos os dois canais de TV tocavam o jingle dos cobertores Parahyba: "Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar..." e a criançada desaparecia da sala antes que a cinta começasse a cantar.

As coisas não mudaram muito do planeta em que fui criado para o planeta de meus filhos. Nos dois planetas e-mails, conhecidos como "cartas", não eram enviadas com um clique do dedo, mas com uma lambida da língua num papelzinho chamado "selo". Câmeras fotográficas precisavam de filme, uma tira de acetato enrolada num cartucho que era depois levado a um laboratório para produzir fotos de papel. Por serem caras, ninguém gastava filme com gatos ou esmalte de unha, só com filhos e parentes para guardar num álbum. O meu tinha capa de madeira envernizada. As fotos só podiam ser compartilhadas pessoalmente ou via correio, e nudes só eram encontrados em revistas para adultos e produzidas por adultos, nunca por crianças em frente ao espelho.

Tanto no planeta em que fui criado, como no de meus filhos, meninos ganhavam sapatinhos azuis ao nascer, e meninas rosa. Não havia "Ideologia de Gênero" e as crianças não corriam o risco de trombar com um adulto do sexo oposto num banheiro unissex. As escolas só podiam ser ocupadas por estudantes em dias de aula e quando tocava o sinal, e quem mandava na sala de aula era o professor. No intervalo as crianças brincavam de aviãozinho, mas só correndo de braços esticados e desarmadas. Nos dois planetas, no meu e no de meus filhos, as crianças saíam da escola sabendo ler e escrever em um idioma que chamávamos de "Língua Portuguesa".

Para viajar usava-se um GPS feito de papel e conhecido como "mapa". Não era preciso recarregar, só dobrar. Em casa tocávamos música num player chamado "vitrola", e os arquivos mp3 eram baixados de lojas reais e já gravados em CDs pretos de vinil. Havia CDs de diferentes tamanhos: "LP", "Compacto Simples" ou "Compacto Duplo".

No planeta de meus filhos os discos riscavam, mas não se quebravam com facilidade, uma evolução se comparados aos do planeta em que nasci, feitos de um material frágil como vidro. Um dia inesquecível foi quando saí pela casa carregando a coleção de música italiana de meu pai numa pilha de discos 78 rpm. Quando ele me viu, gritou para eu largar. Naquele planeta obedecíamos aos pais, e eu larguei.

No planeta de meus filhos já era possível ouvir música no carro e na rua usando fitas K7. Como o player era grande demais, quase ninguém era visto levando um a tiracolo, e a perda da audição das crianças só começava quando chegavam à terceira idade.

Os auditórios –  que na Terra são chamados de "igrejas neo-pentecostais"  – lá eram chamados de "cinema" ou "teatro", e você só pagava para entrar. Uma vez dentro, ninguém pedia dinheiro. As crianças eram levadas àqueles lugares só quando havia uma programação adequada, pois existia uma filtragem chamada "Censura" e a idade era verificada na porta. Ao contrário do que ocorre hoje na Terra, era impossível uma criança assistir pornô no telefone. Estes eram usados só para telefonar.

As crianças do planeta onde cresci eram esqueléticas, leves e ágeis. Eu tinha uma Tia Bete, mas nunca ouvi de algum menino que tivesse diabetes. Refrigerante só em festa de aniversário de primo rico. Na TV não passava UFC – Ultimate Fighting Championship  – porque tínhamos TPS  – Te Pego na Saída  – ao vivo todos os dias na saída da escola. Quem perdia não ficava recalcado e nem vitimizado. Só chorava e pronto, porque ainda não tinha sido inventado o bullying.

Os "games" eram jogados em praças, ruas e quintais usando pernas e braços, e não apenas dedos. No planeta em que meus filhos foram criados já existiam consoles de videogame, mas para jogar com um amiguinho era preciso ele vir à sua casa ou você ir à casa dele. Ninguém jogava ou namorava sem se encontrar pessoalmente, e não existiam emoticons, emojis ou smileys para demonstrar sentimentos. Todos usavam expressões faciais.

Hoje quando visito a casa de minha filha aqui no planeta Terra, chego a achar que ela exagera em seus receios, limites e regras para proteger meus netos da atmosfera poluída que sai dos canos de descarga da Internet, TV a cabo e redes sociais. Aí ela precisa me lembrar de que não sou deste planeta, e não sou mesmo. Dou meus palpites mas confesso que eu nem saberia com criar uma criança hoje no planeta Terra. Afinal, fui criado no planeta "Sessenta Anos Atrás" e criei meus filhos no mundo de "Trinta Anos Atrás". Quando pequenos, tenros e vulneráveis, nem eu e nem eles ficamos expostos a uma tamanha carga de radiação moral, degradante e mortal como a que envenena o planeta Terra atual.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


© Mario Persona  - Quer publicar Mario Persona CAFE em seu blog? Não se esqueça de colocar um link apontando para www.mariopersona.com.br .
    


More Recent Articles


You Might Like

Click here to safely unsubscribe from "Mario Persona CAFE - Cronicas de um palestrante."
Click here to view mailing archives, here to change your preferences, or here to subscribePrivacy