Quando eu era criança, se alguém me perguntasse qual seria o futuro do jornal eu saberia responder: o açougue. É que na época eu achava que jornal eram aquelas folhas enormes que entravam em nossa casa de duas maneiras: para meu pai ler ou ...

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Parem as maquinas! and more...

Parem as maquinas!

Quando eu era criança, se alguém me perguntasse qual seria o futuro do jornal eu saberia responder: o açougue. É que na época eu achava que jornal eram aquelas folhas enormes que entravam em nossa casa de duas maneiras: para meu pai ler ou embrulhando a carne.

Hoje sei que jornal não é a plataforma que ora transporta as letras, ora a carne. Ainda que o jornal de papel desapareça, o papel do jornal não vai desaparecer, pois o jornal é o blog da História. É nele que Dona História registra diariamente aquilo que depois será estudado na academia. Ou não.

Há alguns anos um grande jornal pediu uma proposta para uma palestra. Quando a palavra e-reader começava a pipocar, permitindo a leitura confortável de todo o conteúdo da Web, os diretores do jornal queriam conhecer minha opinião sobre o impacto das novas tecnologias em seu negócio. Enviei a eles uma proposta contendo os tópicos abaixo em formato de seções de jornal, que podem servir de axiomas para o futuro da mídia impressa. Fique você ciente de que escrevi mais nas entrelinhas do que nas linhas.

NEGÓCIOS — O negócio do jornal não é imprimir papel, mas causar impressões com sua investigação, análise e interpretação dos fatos.

POLÍTICA — A velocidade dos fatos é maior do que a que o jornal consegue alcançar. Presidentes já não convocam a imprensa para coletivas; eles convocam as redes sociais. Você fica sabendo antes da imprensa acessando Twitter, Whatsapp, Youtube, Facebook porque é ali que o político agora conta o que vai fazer.

VEÍCULOS — O fabricante do Cadillac não conseguia entender a razão da queda nas vendas, até perceber que os donos de Cadillac estavam morrendo.

HORÓSCOPO — As expressões “the future of the radio”, “the future of the television” e “the future of the newspaper” apareciam, respectivamente, 30 mil, 90 mil e 990 mil vezes quando fiz uma busca no Google (na edição deste livro os números subiram para 11,3 milhões, 6,9 milhões e 12,2 milhões). Quando tem muita gente olhando para o telhado é porque sua gata deve ter subido lá.

POLÍCIA — É difícil competir com a lesão ao vivo e em cores dos meios multimídia. Finalmente o jornal conseguiu se livrar do estigma da máxima que diz que “se não sangrar, não tem audiência”. Pior para ele.

TEEN — A geração atual aprendeu a ler no videogame, mas quando a pesquisa pergunta ao jovem se ele lê jornal de papel ele diz que sim com pinta de intelectual. Pesquisados são mentirosos e pesquisas são ingênuas.

ECONOMIA — A verba de propaganda foi tão pulverizada que agora a briga por ela é entre o conglomerado com 10 mil funcionários e o blog do Zezinho, aquele seu sobrinho.

ESPORTES — O consumo de banda e computação móvel cresce. É covardia deixar seus caracteres de tinta correr na mesma raia dos pixels multimídia.

CLASSIFICADOS — Os classificados foram desclassificados e reclassificados por serviços como Google, Craiglist, Buscapé, MercadoLivre etc. O balcão de anúncios também pode ser encontrado à venda lá.

TURISMO — Insistir que a informação continue limitada ao papel é obrigar os aviões a viajarem em trilhos. Questão de bom senso na logística de distribuição.

CULTURA — Na era do Creative Commons e da remixagem digital, a tecnologia desbanca a autoria individual, quando genérica e sem sal, e cria colchas de retalhos de informação em cores mais vibrantes.

OBITUÁRIO — Vale para o jornal impresso o que vale para o rei: “O jornal morreu. Viva o jornal!”.
Você deve estar curioso para saber se aquele jornal gostou da proposta. Provavelmente não, porque não me contratou. Às vezes você precisa dizer aquilo que seu cliente quer ouvir, às vezes não. Existe uma tendência perigosa no ser humano de buscar por opiniões que não deem trombada em sua opinião formada.

Quando pediram a proposta jornal já havia gasto milhões com a renovação de seus equipamentos seguindo a diretriz da consultoria que contratou que concluiu que os jovens só não estavam lendo mais jornais porque não eram coloridos. Perguntado sobre a razão do desinteresse da nova geração em comprar jornais, um especialista que presta serviços para grandes conglomerados respondeu: “Deve ser porque os jovens estão lendo o jornal comprado pelos pais”. Ingenuidade ou conveniência? Não, eu não sei informar se foi esse especialista, ou o outro, da consultoria, que o jornal contratou para a palestra.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


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Memoria como areia nos dentes

Algumas formas de memória são tão poderosas que nos acompanham por toda a vida. A memória musical, por exemplo, que os pesquisadores descobriram ser mais forte até que os casos mais graves do Mal de Alzheimer. Pessoas que já não respondem a estímulos de qualquer natureza, saem de sua letargia quando escutam a música que marcou sua infância ou juventude.

Memória olfativa também é poderosíssima. Às vezes caminhando pelo centro da cidade sou levado de repente para minha adolescência nos Estados Unidos, onde vivi algum tempo como estudante de intercâmbio. Ali sentia com frequência um aroma que não era comum no Brasil, uma receita de ketchup e mostarda usada em algumas lanchonetes nos hambúrgueres.

Só para você se situar, em minha adolescência o Brasil estava na era pré-McDonald's e os sanduíches aqui eram o bauru (pão francês, bife, queijo e tomate), o americano (pão francês, queijo, presunto, ovo e tomate) e o misto quente (pão de forma com queijo e presunto). As receitas podiam variar dependendo do lugar. Havia também o cachorro quente, que não vinha com batata palha ou outros ingredientes, além do pão com mortadela. Minha mãe fazia às vezes hambúrguer em casa, mas não me lembro de encontrar isso em lanchonetes.

Outra memória poderosa é a gustativa, que escreve em nosso paladar momentos únicos do passado que nunca desaparecem. O gosto do refrigerante Dr. Pepper, por exemplo, é um que me leva de volta à adolescência em terras americanas, e cada vez que piso nos Estados Unidos preciso tomar um Dr. Pepper para me sentir com a missão comprida.

Mas um sabor que me faz viajar ainda mais distante no passado eu acabei de sentir agora mesmo, quando enfiei na boca um punhado de biscoitos de polvilho do tipo doce (o salgado é o mais comum). Meus pais compravam o biscoito doce na praia de Santos, quando íamos de férias e ficávamos hospedados na Pensão Paulista.

Imagem retirada do site Novo Milênio e publicada na revista santista Flama de dezembro de 1943
(imagem do acervo do historiador Waldir Rueda)
Na areia eu costumava estar equipado já com um baldinho de lata (comprado na própria pensão) que era vendido cheio de balas e vinha também com uma pazinha de madeira. Às vezes ganhava também um barquinho de madeira que vinha igualmente cheio de balas condicionadas em papel celofane. Sou do tempo em que brinquedos de plástico ainda não existiam. Então quando aparecia o vendedor de biscoito eu queria o doce, e a assinatura permaneceu em meu cérebro desde então.

Meu pai, minha irmã e eu na praia de José Menino, Santos.
Mastigar um biscoito me leva a sentir, não só o gosto da infância, mas também garanto a você que sou capaz de ouvir o barulho das ondas, a brisa do mar e o cheiro de maresia. Está tudo no pacote da experiência gustativa. Só falta uma coisa, e você pode não acreditar, mas até hoje mastigo com cuidado esperando ouvir o "Créc" de algum grão de areia nos dentes. Agora não acontece, mas sempre acontecia, principalmente com um menino comendo biscoito de polvilho com as mãos cheias da areia de um castelo que eu acreditava que duraria para sempre.

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O fim do livro

Enquanto a tecnologia vai se intrometendo em todos os cantos de nossa vida, alguns já começam a prefaciar que o livro, como o conhecemos, logo será uma página virada. Terá cumprido seu papel. Sem poder resistir aos meios eletrônicos de edição, armazenagem e leitura da informação.


No passado, a publicação de um livro dava o maior rolo. Para ler era preciso desenrolar a pele de cabra, toda tatuada de caracteres. Livros que não tinham índice, pois não passavam da página um. Cuja produção era caríssima. Um trabalho duro para autores e escribas. Os editores só enrolavam.

Alguns capítulos depois, os chineses e japoneses do sexto século inventaram a imprensa. Mas não a assessoria de imprensa. Se a tivessem inventado, teriam evitado que a fama pela descoberta ficasse com Gutenberg, quando imprimiu 180 exemplares da Bíblia nove séculos mais tarde.

Antes dele, uma Bíblia levava dez meses para ser copiada à mão, a quatrocentos mil dólares o exemplar. Um dinheiro difícil, antes de inventarem a América. A tecnologia reduziu o custo e popularizou o acesso à informação, e ajudou a abalar a estrutura de poder. Victor Hugo, em "Notre Dame de Paris", história contemporânea à invenção da imprensa, descreve o sacerdote Claude Frollo apontando para um livro e, em seguida, para as torres da catedral. E sentenciando: "Isto matará aquilo."

Roma foi a primeira a tentar preservar a ignorância a qualquer custo. Ao menos fora dos contrafortes de seus mosteiros. Muito antes de pensar em lutar pelos sem-terra, engajou-se na luta pelos sem-livro e sem-Bíblia. Para que permanecessem assim.

O livro era um perigo. Transportava idéias como estopim aceso. Um problema para quem detinha o poder. Políticos inflamavam multidões. Músicos popularizavam suas canções. Cientistas multiplicavam descobertas. Comunistas inventavam o livro descartável. A cada celebridade que caía em desgraça no partido, os livros escolares eram reimpressos com nomes a menos para se decorar.

Com o computador e a Internet, a própria leitura mudou. Uma nova geração de leitores aprendeu a ler na tela, a uma velocidade maior à dos mais versados mestres educados no papel. O hipertexto inaugurou a leitura não-linear, paralela, reversa e imprevisível. O ler ficou mais parecido com o pensar. Os olhos passaram a fazer a sinapse prévia da informação usando neurônios alheios. Uma geração insensível a qualquer tato romântico para com o papel, já começou a substituir os moribundos amantes de alfarrábios como eu. Sem sequer saber o que isto significa.

Mas a revolução não está na troca do papel pelo plástico. Ou da tinta por partículas polarizadas. A revolução está nas entrelinhas. No passado o livro não era um produto, mas um meio de se divulgar idéias. Governos e instituições subsidiavam seu custo para cumprir seus objetivos. A Bíblia inglesa "King James" leva até hoje o nome do rei que a patrocinou. E ainda é assim. Governos e instituições subsidiam o papel, as gráficas, os autores e editoras. Quem quer ver a informação circular paga mais. Quem quer ler paga menos. Ou não paga nada.

Este modelo permanecerá, não importa qual seja a plataforma que transporte as letras. E ganhará novos mecenas em causa própria, graças ao custo zero de reprodução que a Internet permitiu. Uma multidão de novos talentos, gerados pela leitura não-linear e alimentados pelo hipertexto. Revolucionários, para os quais o que vale é publicar e influenciar. Milhões de Mao Tse-tung, cada um acreditando que o seu livrinho é o vermelho.

Mas o epílogo pode vir para o livro convencional, sem direito a errata. Um produto cada vez menos comprado, e cada vez mais copiado. Por uma geração acostumada a sorver informação grátis na rede. Como já acontece com a música, e acontecerá com o cinema, o cenário não é dos melhores para a indústria do livro. Que já desistiu de vender enciclopédia na porta de quem consegue mais informação clicando nas janelas.

Tudo deve mudar muito rápido e não consigo enxergar muitas páginas de perspectiva para o negócio do livro como o conhecemos hoje. Não existe um manuscrito certo do modelo de mercado que deve prevalecer. Dos que já vi — vendas "à la Stephen King", criptografia dos textos, travas e cadeados mil — nenhum me convenceu. Por isso, não me pergunte como o livro irá terminar. Não vou contar. Detesto pessoas que contam o fim do livro.

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Yes, nós temos cana

O Tio Sam veio aqui, chupou cana, escovou os dentes e assoviou de contente. Se antes o vizinho era o Canadá, agora vizinho é qualquer país onde cana dá. O Brasil se alvoroçou, Zé Carioca sambou e Carmem Miranda cantou: “Yes, nós temos cana!” O petróleo virou vilão.

E quem vai dizer que não? Monteiro Lobato quis defender o petróleo e pegou seis meses de cana. Mal sabia ele que um dia o país deixaria de lado “O Petróleo é Nosso” e adotaria o lema “Cana Para Todos”. A Polícia Federal já adotou e veja no que deu. Os canadólares apareceram mais rápido que os petrodólares.

Tirando os morros do Rio, onde a cana é difícil de pegar, a monocultura vai tomar de assalto nosso território. O Brasil vai ficar um verde só, do Oiapoque ao Chuí. Os ambientalistas que nos vigiam pelo Google Maps vão pensar que reflorestamos a nação. Mal sabem eles que o país do carnaval virou um canavial.

No interior de São Paulo, onde moro, “canaviar” é substantivo caipirês, mas aposto que vai virar verbo. Aqui está tudo canaviado. Se canaviar afeta a biodiversidade? Que biodiversidade? Aqui mel tem gosto de melado, teta de vaca dá garapa e passarinho voa em ziguezague depois que bebe água que passarinho não bebia.

No resto do país tem gente preocupada porque o João vai canaviar a lavoura do feijão. Geralmente quem se preocupa não está na pele do João. Se estivesse, também iria para onde aponta o lucro imediato, pois é assim que funciona a economia. Nosso comportamento é ditado pela demanda.

Existe demanda por drogas, caça-níqueis e produtos piratas? Então a cana vai correr solta, enquanto cresce a indústria de seguros, blindagem e vigilância. Há demanda por combustível verde? Então a cana vai crescer solta, enquanto crescem as pesquisas, equipamentos e serviços de minimização do impacto ambiental.
Somos assim, vivemos correndo atrás do prejuízo porque buscamos satisfação imediata. O ser humano tem olhos na frente do crânio, como o felino predador e a ave de rapina. É essa sua natureza e vocação, daí viver remendando sua saga destrutiva.

Quem ainda acredita na evolução humana experimente ficar quinze minutos na Linha Vermelha no Rio meditando pela paz mundial. Em 1980 o Papa desfilou aqui em um papamóvel com carroceria anti-chuva. Em 2007, vinte e sete anos mais tarde, o papamóvel de 10 milhões de reais resistia a granadas e tiros de metralhadora e fuzil. O que evolui não é o homem, mas a tecnologia que nos mata e também garante nossa sobrevivência.

Sim, é inevitável que a cana substitua o arroz, o feijão e o bife, enquanto o álcool sobe no ranking das exportações, hoje encimado pelo minério, soja e brasileiros mandando dólares do exterior. O minério não é renovável e a soja dá também nos Estados Unidos. O jeito vai ser exportar álcool e brasileiros, não no mesmo voo.

Não seremos os únicos em busca de alternativa. O Dubai sabe que seu petróleo tem data para terminar e corre para o turismo, enquanto o Bahrain corre para as corridas e outros esportes. Nós, quando a coisa aperta, corremos para a cana. É nossa vocação desde os tempos de Macunaíma.
Mas o que será da vaca quando os pastos forem canaviados? Se depender dos relatórios da ONU, a vaca vai para o brejo. Vacas eructantes e flatulentas são grandes vilãs do aquecimento global. Juntando o arroto quadruplicado de seus quatro estômagos e o escapamento que trazem sob o rabo, as mimosas produzem mais poluentes que todas as emissões de carros e fábricas do mundo.

Complicou para os ativistas de botequim, que preferiam protestar contra a cana sem abrir mão do espetinho de carne e do provolone com cerveja. A cerveja fica, mas já tem gente correndo atrás da avestruz para substituir a vaca, o que não é tarefa fácil. Além disso, avestruz não dá leite.
A cana não corre e é mais flexível. Já inventaram até cana geneticamente modificada para canaviar pântanos e desertos. Não demora e a cana vai parar na mamadeira. Se os argentinos conseguiram criar vacas transgênicas que produzem insulina humana, e o nordeste já faz carne do bagaço do caju, o que nos impede de inventar um alambique leiteiro?

Tenho certeza de que os pesquisadores brasileiros encontrarão mais de 51 maneiras de utilizar a cana, e os bebês do futuro já nascerão “flex”. Para quem a cana é uma ameaça, o jeito é encarar e mudar, e não tentar evitar o inevitável. Até Monteiro Lobato, petrolista convicto, acabou desenvolvendo uma paixão secreta pela cana. Sua biografia revela que o escritor não saía de casa sem um belo pedaço de rapadura escondido no bolso do paletó.

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Meus dias de revolucionario natureba

Uma pessoa que nasceu em 1991, e não sabe o que é viver sob um regime militar, me escreveu perguntando como teria sido minha vida naquela época. Fez bem em perguntar, porque a maioria dos que hoje vivem protestando nas redes sociais sequer existiam naqueles ano,s e seu protesto costuma ser fomentado mais por terceiros de terceiros, alguns deles simpatizantes da guerrilha armada que na época era contra o regime. A mesma que depois engordaria sem regime no comando do país.

Eu não saberia falar de diferenças de antes do regime militar, pois nasci em 1955. Mas eu me lembro quando, em 1964 e aos 9 anos de idade, via meu pai grudado no rádio para escutar as notícias, que depois ele me explicava. O que entendi foi que o país ficou à beira de ser transformado numa Cuba gigante, quando a Venezuela ainda não era modelo de sucesso do socialismo. Recordo da época que meu pai foi ao armazém e encheu nossa despensa para o caso de começar uma revolução.

Hoje sabemos mais, como por exemplo que a esquadra americana estava pronta para surfar de botas na praia de Copacabana, caso os militares não tomassem o poder. Felizmente não aconteceu, nem invasão comunista, nem americana. Ao menos naquele momento, pois os americanos invadiriam anos depois com McDonald's, Nike, Levis, Xerox etc., e depois seriam invadidos pela China.

Eu me lembro dos comentários em casa sobre uma uma caça aos simpatizantes de ideias socialistas e comunistas, mas acho que aconteceu mais entre o pessoal ligado à política. Como meus pais não se envolviam, nada aconteceu conosco. Em minha cidade sei de alguns que foram investigados e interrogados, geralmente vereadores, mas nenhum foi morto ou torturado, ao menos que eu saiba.

Nos tempos de ginásio e colegial eu nem sei se havia alguma diferença, mas sei que era muito mais seguro de se viver, talvez porque polícia e militares eram temidos e respeitados por todos. Andar de uniforme ou farda era motivo de orgulho, e nenhum policial precisava secar a farda dentro de casa para não ser vista no varal, e nem sair à paisana para o serviço para não ser morto por bandidos.

Na escola a única coisa chata era estudar OSPB, Organização Social e Política do Brasil, que não existia antes. E na escola também era obrigatório usar uniforme, ficar em pé quando o professor entrava na sala e marchar no 7 de Setembro. Mas o ensino que tive, primeiro no ensino básico municipal, e depois num colégio estadual, foi dos melhores. Reparou que sei ler e escrever?

Na faculdade percebi um pouco mais o que era viver em um regime militar. Além das receitas de doces e salgados, que apareciam na primeira página do jornal O Estado de São Paulo, para ocupar o vazio do que tinha sido cortado pelos censores na redação, todos sabíamos que era proibido fazer manifestações públicas, colocar bombas em quartéis e assaltar bancos para comprar armas. Como todo universitário, eu contra tudo e todos. Na faculdade OSPB virou COSPB - Contra a Organização Social e Política do Brasil.


Quando um estudante foi preso em São Paulo por distribuir panfletos anti-governo, promovemos uma paralisação na faculdade e uma assembleia para exigir a liberdade de pensamento e manifestação. Eu, que ainda era bobo o suficiente para ser maria-vai-com-as-outras, aderi ao movimento. No dia da assembleia, sentei-me ao lado da líder, que usava coturno e boina com estrela vermelha, mas não barba. Eu achava o máximo sua iniciativa e coragem de querer transformar o Brasil em Cuba. Ou na Venezuela do futuro.

Quando vieram avisar que duas alunas se recusavam a sair da classe, e o professor daria aula se tivesse alguém na sala, essa líder ficou vermelha da cor da estrelinha e berrou: "NÃO PODE! ARRANQUEM ELAS NEM QUE SEJA À FORÇA!!!". Aí caiu minha ficha e eu caí fora de meus breves espasmos de esquerda. Como manifestar em prol da liberdade arrancando à força quem não concordasse? Não fazia sentido e fui lutar em outra frente, a do ativismo ambiental.

Chapado de idealismo, saí de Santos e da faculdade de Arquitetura e Urbanismo determinado a mudar o mundo. Eu pretendia fazer isso indo morar no mato e vivendo como um revolucionário natureba ligado, militante do Partido Macrobiótico. Isso mesmo, me alistei na guerrilha do tofú, armado de ohashi e promovendo atentados com bomba de gersal e napalm de ban-chá. Os prisioneiros que não morriam de anemia, carência de proteínas ou falência renal de tanto shoyu, eram torturados com agulhas de acupuntura e envenenados com incenso.

Com uma Kombi cheia de tralhas, fui morar com minha recém casada esposa no meio do mato em Alto Paraíso de Goiás. Além de plantar horta e criar galinhas, lecionamos durante três anos num colégio estadual, onde havia também um casal de jornalistas de Santos, menos radicais que nós. Você acha que ser professor numa cidade de setecentos habitantes na Chapada dos Veadeiros não dava status? Engano seu. Éramos famosos ali e na capital do estado.

Um dia o governador Ary Valadão fez uma escala no local com seu avião e não tinha nenhuma autoridade da cidade para recebê-lo. Prefeito e vice prefeito estavam fora, então foram me chamar para recepcionar o homem. Quando entrei na salinha do hotel onde serviam café com doce de marmelo, o governador olhou com estranheza para aquele rapaz magrinho de dar dó, com camiseta tamanho "P" folgada e jeans rasgada. Perguntou: "Quem é você?". "Meu nome é Mario Persona e ...". Ele nem me deixou completar a frase. "Ah, você é um daqueles universitários que vieram de Santos para lecionar na escola... sei... sei...".

Anos mais tarde eu entenderia o que tinha se passado naquela cena bizarra. Antes mesmo do Facebook, Youtube e Twitter nosso nome já era conhecido de uma rede social da época conhecida po
SNI, o Serviço Nacional de Informações, criado em 1964. Exceto pelo pessoal do Projeto Rondon, pessoas saídas da faculdade para morar em lugares isolados eram suspeitos. Soube anos mais tarde que na época a guerrilha do Araguaia rolava ali ao lado, e o serviço de inteligência do governo monitorava as moscas brancas estranhas ao ambiente.

Numa cidade com apenas um nativo com curso superior, que era o dentista local, a chegada de quatro universitários fazia o alarme soar. Se ainda fossem advogados, médicos ou engenheiros, tudo bem. Mas dois jornalistas, um arquiteto e uma artista plástica? Todos formados em cursos de Humanas? Fala sério!

Em 1986 voltei a Alto Paraíso para uma visita de final de semana e conheci um rapaz que estava morando lá e dizia ter sido torturado pelo exército na região do Araguaia. Ele mostrou a coxa, toda cheia de cicatrizes de queimaduras. Queriam que ele confessasse fazer parte da guerrilha, mas ele jurou que só tinha ido lá para vender carnês do Baú da Felicidade.

No final dos anos 80 tive um colega que tinha servido num quartel de São Paulo para onde levavam os presos políticos para bater papo e outras coisas. Esse colega nunca participou, mas contou que dava para ouvir os gritos. Então pode ter certeza de que aconteceram sim prisões, torturas e mortes de pessoas ligadas à guerrilha armada ou apenas suspeitas. Quem não estava ligado à guerrilha ou movimentos simpatizantes pouco sabia.

Toda brutalidade é condenável, mas é também o chamado "dano colateral" das guerras, e o Brasil estava em guerra contra os terroristas. Numa guerra não se atiram flores, e sim balas de verdade. Há quem diga que violência se combate com livros, mas não foi com livros que Marx, Lenin, Engels, Gramsci e outros iniciaram sua revolução violentando as mentes de milhões? A truculência física viria depois, com Stalin, Fidel, Che, Mao, Pol Pot, Kim Jong-sum e suas crias.

Muita coisa mudou desde então. Terroristas agora fingem ter motivação religiosa islâmica e no Brasil a guerra é contra o narcotráfico, onde o governo perde por dificuldade de comunicação. Não consegue explicar aos traficantes e ao crime organizado que brincar do jeito deles não vale. Os traficantes não respeitam os direitos humanos e nem as deliberações da ONU. O governo tem atirado livros, mas só nos que já estão presos, para ajudar a reduzir a pena escrevendo resenhas. Então... "não é sem motivo que ela [a autoridade] traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal." (Romanos 13:1-8).

Ao contrário do que pensam alguns cristãos mais humanistas, essa "espada" a que o apóstolo Paulo se referia não era aquela do He-Man, de plástico, que meu filho ganhou na escolinha do pré, e quando chegou em casa tentou santificá-la dizendo que era a espada de Davi. Achamos graça e deixamos que ficasse com sua espada bíblica.

É que quando eles eram pequenos, não dávamos armas de brinquedo, e éramos também contra armas de verdade. Anos antes, morando no meio do mato e a seis quilômetros da cidade de Alto Paraíso, para enfrentar barulhos suspeitos no meio da noite eu abria a janela, soltava um rojão, e fechava. Como nunca fomos assaltados, só posso deduzir que os que tentaram morreram de susto. Ou de rir.

Mas a modernidade nos atropelou. Foi só nossos filhos crescerem um pouco e logo estariam jogando no computador, matando os adversários na pancada ou destruindo planetas inteiros com bombas atômicas e raios laser. Lembro-me de uma vez quando, da rua, escutei minha filha na torcida gritando para o irmão: "MATA, LUCAS, ATIRA! MATA ELE!!!".

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