Quando vi o site do hotel na Internet fiquei animado. Já podia me enxergar ali, largado à beira da piscina, a dois passos da praia, e comendo metade das espécies de peixes e crustáceos do Atlântico ao som do pipocar do gás da cerveja. Não foi bem ...
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Quase enganosa - Mario Persona and more...

Quase enganosa - Mario Persona

Quando vi o site do hotel na Internet fiquei animado. Já podia me enxergar ali, largado à beira da piscina, a dois passos da praia, e comendo metade das espécies de peixes e crustáceos do Atlântico ao som do pipocar do gás da cerveja. Não foi bem assim.

Se visitar o site de um hotel na Internet, desconfie. Com a lente correta e algum conhecimento de Photoshop, qualquer garoto é capaz de transformar a marginal do Rio Tietê, em São Paulo, em avenida beira-mar. É o que chamo de propaganda quase enganosa. A realidade é mesmo aquela, só que distorcida pela lente do artista.

Nunca me esqueço do evento de uma semana em um hotel que a empresa que eu atendia contratou pela Internet. No site, a sala de convenções parecia o estádio do Maracanã, graças às fotos com lente olho-de-peixe. Uma vez lá, foi difícil manter naquela lata as cento e poucas sardinhas participantes.

No caso do hotel de onde escrevo, só descobri que era uma pousada quando cheguei aqui. Algumas pousadas são organismos vivos, que nascem de uma pequena casa e crescem graças ao transplante de cômodos e casas vizinhas. Tenho um palpite de que daqui a cem anos esta será comparada a uma obra de Gaudí, como o templo da “Sagrada Família” de Barcelona, tamanha a variedade de ladrilhos, pisos e azulejos.

O site que me trouxe até aqui criou em mim a falsa impressão de que ficaria hospedado em uma vila no Mediterrâneo, com as ondas batendo sob a janela de um quarto com vista para o mar. Tudo o que consigo ver são quintais e cachorros que não param de latir. No site havia uma foto do hotel bem ao lado dos iates da foto de uma marina local. A foto dos feios quarteirões que separam uma coisa da outra não estava lá.

No apartamento tudo é improvisado, até os quadros. Assim que entrei fui tomado por um sentimento de nostalgia e imediatamente me lembrei dos natais dos tempos de criança. Não, não são quadros de paisagens natalinas, mas apenas pedaços de papel de presente emoldurados. Você deve conhecer, desses que mostram instrumentos de navegação, cachimbos, bússolas, mapas antigos e coisas do tipo. Há vantagens, porém. Eu quase não sinto o cheiro de esgoto que sai da pia e dos ralos do banheiro, graças à naftalina. As bolinhas estão em toda parte. Meu medo é sair daqui viciado.

A cidadezinha litorânea é minúscula, mas não se iluda achando que isto signifique tranquilidade. Um trem de carga atravessa o lugar a poucas quadras da pousada, e tantas quantas são as ruas que os trilhos cortam, tantos são os apitos que ele dá de dia e de noite.

Mas é claro que o trem não passa o tempo todo. Nos intervalos entra o som dos candidatos a vereador em plena campanha eleitoral. Como a cidade é pequenininha e só escuto um candidato de cada vez, acredito que os carros tenham combinado sair como fazem nos sambódromos, um a um, para evitar misturar as propagandas. Ou então a cidade só tem um carro de som para preencher as lacunas entre os apitos do trem.

A pousada não serve refeições, por isso comi um peixe no primeiro lugar que encontrei. Minha impressão é que aquele peixe era reincidente e tinha sido frito duas ou mais vezes. Na música ambiente do lugar o Roberto cantava “Eu voltei”. Eu sei que existe uma campanha para não comermos peixes em extinção, mas será que ela inclui os extintos? Começo a achar que esse peixe vai voltar à noite para me assombrar.

Minha preocupação com o peixe se agravou quando voltei à pousada e decidi procurar na Internet informações sobre a cidadezinha. Sabe como é, não vi nada de interessante, mas pode ser que eu tenha perdido alguma coisa nos cinco minutos que levei para atravessar a cidade caminhando a passos lentos. Encontrei um site de informações turísticas que falava das duas ou três atrações do lugar:

“Quando estiver na cidade, escolha um dos muitos quiosques instalados no cais para petiscar um peixinho frito. Para fazer a digestão, visite a igrejinha de Nossa Senhora...”

É, definitivamente vou ter problemas com o peixe.


Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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A nova Revolução Cultural

Quando acordei hoje achando que tinha tido uma ideia original e inédita, ao comparar à "Revolução Cultural Chinesa" os movimentos pró-politicamente correto, anti-racistas, anti-homofóbicos e anti-outras coisas, logo descobri que outros já tinham pensado nisso em artigos e livros. Ou, como um amigo costuma dizer, "Os antigos me copiaram".

O banimento do filme "E o vento levou" do catálogo da HBO, a destruição de estátuas e monumentos do período escravagista da história, e no Brasil a campanha contra os livros de Monteiro Lobato, fazem parte de um mesmo e único esforço de revolução cultural. Porém destruir uma estátua ou um filme é tão eficaz quanto a história do marido que flagrou a mulher com outro no sofá e logo tomou providências: Vendeu o sofá.

Se você já leu sobre a "Revolução Cultural Chinesa" saberá que na época o governo de Mao Tse Tung criou a "Guarda Vermelha", um exército de adolescentes e estudantes armados de palavras de ordem, que tinham poder para invadir casas, espancar moradores e destruir tudo que tivesse alguma aparência de imperialismo e capitalismo ocidental. O critério do que devia ser destruído ou não? Ora, a larga experiência e conhecimento de garotos e garotas de quinze anos lobotomizados pela doutrinação maoista.

Valia tudo, queimar pianos de cauda com partituras dos grandes clássicos do ocidente, rasgar pinturas de grandes mestres, queimar montanhas de livros, quebrar objetos de toda e qualquer religião e eventualmente espancar até à morte intelectuais formados pelo "imperialismo ocidental", muitas vezes os próprios professores daquelas crianças. Ah, e tem também os casos de pastores que foram enterrados vivos para banir qualquer desejo de ser cristão.

Mas não foi só a memória do que a rapaziada considerava imperialismo que foi destruída. A Revolução Cultural Chinesa e sua Guarda Vermelha imberbe também incluíam a eliminação dos "Quatro Velhos": Velhas Ideias, Velha Cultura, Velhos Costumes e Velhos Hábitos. Ao darem àqueles pivetes vermelhos carta branca, eles passaram a destruir tudo que tivesse sido criado antes de 1949, e por isso muita arte chinesa, que havia resistido por milênios a guerras, incêndios e terremotos, virou pó. Até mesmo os livros de genealogia, que as famílias mantinham como tradição, desapareceram, junto com grande parte da história daquele povo.

Aquela criançada nem tinha Twitter ou Instagram, mas mesmo assim conseguiam influenciar toda uma sociedade, até os próprios líderes comunistas perceberem o rastro de injustiça, sangue e destruição que causavam, e arranjarem alguém em quem colocar a culpa: Jiang Qing, a quarta esposa de Mao e poderosa propagandista da Revolução Cultural. Após a morte de Mao ela foi presa, até se suicidar em 1991 aos 77 anos.

Não sou profeta e nem vidente, mas quando olho para todo esse barulho dos movimentos multicores do pró-politicamente correto, anti-racistas, anti-homofóbicos, anti-machistas, anti-paternalistas, anti-autoridades e anti-outras coisas visualizo uma cena de filme de bang-bang antigo, quando os pele-vermelhas amarravam numa estaca um cara-pálida e ficavam dançando em volta fazendo "Uh! Uh! Uh!" ao som dos tambores dos rappers da tribo.

Sabe quem é o moderno cara-pálida da moderna Revolução Cultural, que está sendo amarrado na estaca? A Bíblia, um livro que, segundo a opinião da nova Guarda Vermelha, está cheio de escravos, leis homofóbicas e cultura machista baseada no patriarcado e em um Deus ao qual o texto se refere como "Ele", nunca como "Ela" ou usando um gênero neutro tipo "Elx", "El@" ou seja lá o que os linguistas irão acordar como sendo permitido pelos novos conceitos de "liberdade" de pensamento e expressão..

Então quando você ouve falar de docerias processadas e falidas por se recusarem a fazer o bolo de casamento que os noivxs pediram, restaurantes boicotados por serem pró-vida, vagas de emprego recusadas a quem professa ser cristão e tantas ações que tomam corpo na sociedade moderna e até na cristandade - como a decisão da Igreja Luterana da Suécia de não mais chamar a Deus de "Ele" - pode ir enfiando a viola no saco porque o baile que vem por aí não é para cristão.

"Estamos vendo o nascimento de uma Revolução Cultural sem derramamento de sangue e de alta tecnologia, uma que se apóia na intimidação, no vexame público e na ruína econômica para ditar que palavras e ideias são permitidas na sociedade". - National Review

"O que vemos acontecendo em nossos campi são estudantes universitários gritando em alto-falantes; ativistas do Black Lives Matter pedindo que policiais sejam mortos; censores que estabelecem a lei sobre que entretenimento pode ser fornecido ou que tipo de arte pode ser feita ou vista pelos estudantes." - Law and Liberty

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Com fome na quarentena?

Nesta quarentena onde estou também virei cozinheiro, mais uma habilidade a ser incluída em meu currículo no "Novo Normal". Acabei de cozinhar abobrinha italiana (zucchini) só na água e sal e guardei a água para colocar em uma sopa. Você não guarda a água das coisas que cozinha? Está jogando fora nutrientes. Enquanto o lixo dos países desenvolvidos é rico em embalagens de lata, plástico e papel, o lixo dos países menos desenvolvidos é rico em nutrientes não aproveitados. Folhas de cenoura dão um ótimo refogado, o mesmo vale para folhas de beterraba. Tudo isso é alimento, principalmente em tempos bicudos.

Meu pai vinha de família pobre de italianos, e o prato principal era a polenta. Que frango? Frango só tinha quando um dos dois estava doente, o frango ou a criança que precisava comer caldo de frango (que é anti-inflamatório). Ele morou numa pensão em São Paulo para trabalhar e mandar dinheiro para os pais no sítio em Leme, e me ensinou que na pensão, quando tinha um bife, mesmo que fosse daqueles que você joga para cima e ele cai planando de lá para cá como uma folha de papel, ele comia o bife. Porque o bife de ontem será o picadinho de hoje e o croquete de amanhã.

Para dormir ele enrolava braços e pernas em jornais porque o único pijama que tinha era fininho e o inverno de São Paulo era terrível. Era no tempo em que a cidade era conhecida como "terra da garoa", mas a garoa desapareceu com o aquecimento global. Também tinha o dinheiro contado para o bonde da ida e da volta, e se quisesse comer um doce ou tomar um sorvete ia para o trabalho caminhando.

Com ele aprendi que NUNCA se deixa comida sobrando no prato, jamais, never! Eu disse polenta? Pois é, um alimento bom e barato que revolucionou civilizações. Batata é outro ao qual é creditado a ascensão dos povos europeus depois do descobrimento. O tomate nem tanto, apesar de ter sido levado para lá das Américas, porque só no século 19 descobriram que não era veneno. Até então só servia de enfeite no jardim.

Então o macarrão que Marco Polo NÃO importou da China, porque já existia bem antes dele na Europa provavelmente introduzido por árabes, só era servido sem molho de tomate. E por falar em macarrão, se você não for alérgico a glúten, que é a proteína do trigo, guarde a água do macarrão para a sopa, porque ela é rica em amido e sais minerais, que você deve gastando dinheiro para comprar em cápsulas de suplementos.

Na Web você encontra muitos sites que ensinam a aproveitar talos, folhas e outras partes que as pessoas costumam jogar fora e são alimentos riquíssimos. Outro dia no comentário de um vídeo de ficção no estilo pós-apocalíptico no Youtube alguém comentou: "Que mulher tola! Ela descascou as batatas antes de cozinhar!". Depois disso batata aqui em casa só com casca, seja doce ou salgada.

Em minha próxima dica ensinarei como fazer uma deliciosa "Sopa de Pedra". Nunca tomou? Não sabe o que é bom.

 


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Como organizar eventos no "novo normal"

É bom você ir se acostumando com a ideia de que por um bom tempo os eventos serão pequenos neste mundo do "novo normal" por causa da pandemia do coronavírus. Eventos esportivos, feiras e exposições não devem voltar tão cedo ao calendário de eventos, a menos que surja uma vacina ou a população acabe sendo imunizada pelo que se costuma chamar de "imunização de rebanho". Profissionais na área de promoção de eventos preveem que a situação atual poderá durar por meses ou até anos.

Começando pelos aniversários, quando o aniversariante acabará levando uma sonora vaia caso se atreva a soprar as velinhas sobre o bolo, passando por casamentos e até festas de formatura, a indústria de eventos sofreu uma espécie de terremoto associado a um tsunami com erupção vulcânica, tudo junto. Enquanto alguns tentam negociar com clientes o adiamento de eventos, outros já perceberam que o que os clientes querem mesmo é cancelar tudo. É ilusão achar que tudo voltará ao normal logo ali mesmo porque muitos clientes também terão saído do mercado ou não terão mais recursos para contratar eventos.

Do ponto de vista operacional, leve em consideração que as restrições feitas às viagens internacionais e barreiras em diferentes países também impedirão que grandes eventos sejam feitos com público internacional. O mesmo pode acontecer com viagens dentro de um mesmo país que teve diferentes impactos regionais causados pelo vírus. Promover testes de anticorpos no acesso aos eventos é impraticável.

Quem trabalha na promoção, produção e apresentação de eventos precisará se reinventar. Além desses, existe toda uma cadeia de negócios também pendurada nos eventos, como serviços de bufê, transportes, montagens, equipamentos e até o pipoqueiro que ficava no portão do estádio. Palestrantes precisarão se acostumar a utilizar meios digitais e promotores a criar diferentes modalidades de eventos virtuais, buscando patrocinadores com um novo discurso de vendas.

À medida que as restrições de reuniões forem sendo relaxadas localmente pode ser preciso também trabalhar mais com eventos locais do que abrangendo público nacionais ou internacionais. Mas os eventos virtuais podem também ter um caráter nacional ou internacional e com isso atender a uma gama de patrocinadores interessados em alcançar públicos bem específicos. As redes sociais e influenciadores passam a ter um papel ainda mais importante na divulgação e obtenção de recursos.

Para quem trabalhava na promoção de feiras e exposições sugiro ficar atento às novas tecnologias de Realidade Virtual, que permitem que você tenha a sensação de estar em um outro ambiente quando se usa óculos especiais para jogar, e Realidade Aumentada, com a qual você continua vendo o seu ambiente, porém agregado de informações, vídeos e imagens adicionais. Quem correr na frente pode conquistar novos clientes com feiras e exposições virtuais.

Palestrantes como eu também terão de se reinventar para atender clientes por meio de palestras ao vivo ou gravadas para transmissão via Internet. Já tenho recebido pedidos de propostas de empresas que estão alterando seu calendário de eventos para alcançar seus colaboradores em casa ou em pequenos grupos com medidas de distanciamento social, que agora passam a fazer parte das determinações de Segurança no Trabalho.

Para mim o abalo é menor, pois a quase totalidade de minhas palestras, workshops, treinamentos e coaching acontece em eventos para a empresa que me contrata, e não em eventos abertos ou com adesão por meio de ingressos. É provável que minha menor participação em eventos públicos esteja no fato de eu não ser um palestrante do tipo showman. As palestras-show costumam atrair um público maior e mais diversificado, daí a preferência dos promotores de eventos públicos por profissionais assim.

É claro que minhas apresentações são divertidas, conto casos engraçados e os treinamentos têm dinâmicas interessantes e interativas, mas não sou mágico, cantor ou comediante. Não planto bananeiras e nem peço às pessoas para se abraçarem e beijarem, o que certamente não vai existir mais no "novo normal". Há profissionais que fazem isso melhor do que eu, por isso nem me atrevo a imitá-los e também não promovo meus próprios eventos, como alguns que participam de ganhos pela venda de ingressos.

Muita coisa mudou na era pós-pandemia do COVID-19 ou coronavírus. Com as ordens de quarentena e distanciamento social todos os eventos públicos no Brasil e no mundo foram obrigados a parar, e não só eventos, mas até cinemas, teatros, shows, cruzeiros marítimos, parques temáticos, competições, eventos esportivos etc. Enquanto isso, empresas e profissionais descobriram ser possível trabalhar sem sair de casa, e a mídia também passou a investir em shows, eventos e entrevistas online.

Para o promotor de eventos as dicas que dou aqui continuam valendo com algumas adaptações, mas a ideia básica é transformar o evento online no canal de exposição de um ou mais patrocinadores para fazer a coisa acontecer. Os eventos online seguem de perto a estratégia usada pelas empresas que patrocinam influenciadores digitais, mas do ponto de vista da apresentação tudo deve ser mais breve do que era no mundo antigo pré-pandemia. As palestras organizadas pela TED são um bom referencial para o "novo normal".

Agora vamos às dicas antes que você se aventure nessa difícil profissão, seja para a promoção de eventos presenciais ou virtuais, sem estar devidamente equipado para o que irá encontrar pelo caminho:

Aprenda a passar o chapéu. Nunca tente promover um evento apenas contando com a arrecadação de ingressos. Tem muito dinheiro envolvido nos custos com local, palestrante, viagens, hotéis, alimentação, promoção, equipamento e pessoal de apoio, para você se arriscar. Mesmo hoje, quando esses custos de deslocamento poderão cair, é provável que você precise alugar um estúdio para o palestrante não precisar competir com latidos de cachorros, buzinas e choros de criança, sons que certamente fazem parte do lugar onde mora. Portanto, procure patrocinadores que paguem por tudo isso em troca de promoção.

Promova corretamente. Ninguém saberá que seu evento irá acontecer sem promoção. Também neste caso, evite gastar e procure patrocinadores. Uma entrevista que você consiga numa rádio tem um efeito maior do que dinheiro gasto em propaganda convencional. Lembre-se de que ninguém irá querer patrocinar se você não promover o patrocinador corretamente, fazendo com que ele apareça. Isto não significa passar aquelas duas horas e meia de vídeo dos patrocinadores antes de uma palestra, ou dar a cada um a oportunidade de falar antes de sua atração principal. As pessoas não irão querer pagar para isso. Respeite seu público se quiser tê-lo em eventos futuros.

Agregue valor para patrocinadores, palestrantes e público. Muita gente pensa que promover eventos é colocar um site bonitinho na Internet e esperar o telefone tocar. Pode esquecer. O palestrante de hoje já tem site bonitinho e telefone que toca. Se quiser atuar como agenciador vai ter de correr atrás, visitar empresas, vender, vender e vender.

Respeite os horários. Como palestrante em eventos abertos ao público, sinto-me péssimo quando o organizador fica adiando minha entrada para esperar por mais público pagante. Adivinha de quem o público pensa que foi o atraso? O resultado é trágico, já que o palestrante entra desacreditado e leva um bom tempo para inverter isso.

Conheça seu público. Na hora de promover, é preciso saber quem você quer atingir. Se o seu evento for voltado para um público de indústria, nem perca tempo com outdoors, panfletagem ou comunicação de massa. Vá direto aos meios de comunicação segmentados ou use mala direta para aquele segmento. Não faça spam (propaganda por e-mail) pois na próxima seu remetente pode estar no filtro de e-mails de todas as pessoas que você pensa estar atingindo.

Verifique o calendário. Já participei de eventos que foram um fracasso porque o organizador não prestou atenção no calendário. Assim, um evento voltado para universitários em época de provas dificilmente conseguirá público. Ou uma palestra para profissionais de saúde que coincida com o período de um simpósio importante para aquele público dará um branco total na audiência. Já tive algumas palestras canceladas porque o promotor insistiu que conseguia público... uma semana antes do Natal!

Organize seu auditório. Caso as coisas voltem a acontecer em público, provavelmente será com um pequeno número de pessoas respeitando o distanciamento social. Se for o caso, disponha os assentos em semi-círculo para que todos possam olhar diretamente para a tela de projeção, se o evento for virtual, ou para o palestrante. A torção do pescoço diminui o calibre das artérias que irrigam o cérebro, causando sono. Se for um treinamento com intervalos, peça para as pessoas se sentarem em lugares diferentes na volta do café.

Seja claro. Em eventos e reuniões presenciais a iluminação sobre a audiência deve ser suave; menor sobre a tela de projeção e suficiente sobre o palestrante, para que o público veja seus gestos e expressão facial. Nunca apague todas as luzes do auditório ou aquela será a palestra que todos sonharam ouvir.

Cuidado com a contra-mão. A tela deve ficar à esquerda do palestrante (centro ou direita da audiência), para que este possa apontá-la com a mão esquerda, enquanto segura o microfone com a direita. Obviamente ele não precisará segurar o microfone se este for de lapela. Pode ser preciso inverter tudo se o palestrante for canhoto.

Você sabe com quem está falando? Microfones de lapela deixam as mãos livres, porém podem prejudicar a qualidade de som quando o palestrante olha para os lados ou arruma muitas vezes a gravata. Existe ainda o perigo de ele se esquecer de desligar o microfone enquanto conversa assuntos sigilosos ou fala mal do público enquanto ainda está atrás das cortinas. Se for ao banheiro com o microfone ligado...

Mestre de cerimônias. Este é outro profissional cuja atividade foi abalada pelo coronavírus, mas que ainda pode continuar atuando virtualmente ou em pequenas reuniões. Seu objetivo é valorizar o evento, nunca roubar a atenção do foco principal. Deve fazer a apresentação do palestrante, aproveitando para dar avisos de duração da palestra, intervalos e solicitar o desligamento dos celulares. Deve reassumir no final da palestra para avisos de horários e local do intervalo (se houver) e solicitar um retorno rápido da audiência a seus lugares. Cuidado na hora de contratar o mestre de cerimônias para não pegar um muito engraçadinho e de pouco tato. Odeio quando o mestre de cerimônias cai na vulgaridade pois o público pode achar que o palestrante tem o mesmo nível.

Se tiver que dar errado, vai dar. Projetores, iluminação, microfones e equipamento de som devem estar instalados, com peças de contingência como lâmpadas e pilhas, e testados com antecedência por pessoas que entendem do assunto. Numa palestra para um auditório imenso, fiquei contando meia hora de histórias para ganhar tempo, enquanto dois técnicos desconfiguravam meu notebook só porque não sabiam que bastava teclar FN + F5 (ou outras teclas, dependendo da marca) para jogar a imagem para o datashow. O cuidado também vale e ainda mais para eventos virtuais. Uma conexão ruim pode colocar tudo por água abaixo, então é preciso testar antes ou então gravar o evento com antecedência e transmitir no horário designado. Se não for um evento que necessite de interação do público é provável que ninguém perceba que aquela "live" foi gravada.

Não querendo interromper... Deixe um copo de água à disposição do palestrante, mas nunca peça para um garçom ou recepcionista entrar no palco no meio da palestra para levar um copo. Você pode querer mostrar que sua organização é boa e atende o palestrante, mas o que estará fazendo na realidade é interromper e desviar a atenção do público e do próprio palestrante. As interrupções devem ser previstas também em eventos virtuais, e o palestrante, entrevistado ou artista deve ser devidamente instruído a desligar todos os telefones da casa, usar um cômodo silencioso e deixar todos avisados para não ser surpreendido por interrupções.

Energizar para não atrasar. Se houver ocasião para perguntas, seja num evento presencial ou virtual, isso deverá ser informado antes. Em auditórios grandes costumava-se usar recepcionistas com microfones ou folhas de perguntas, mas como tudo mudou será preciso também planejar como fazer isso no "novo normal", seja em reuniões presenciais ou online.

Hein?! Em alguns eventos o palestrante poderá utilizar recursos de som de seu próprio notebook, portanto procure saber com antecedência se ele vai precisar de amplificador e caixas de som com um cabo para conexão à saída de fone de ouvido do notebook do palestrante. Tenha alguém checando se o volume está bom e sinalizando para o palestrante, pois este geralmente está atrás das caixas ou é meio surdo como eu.

O próximo... não, antes desse... o outro... O ideal é que o palestrante faça a projeção de sua apresentação diretamente de seu notebook e para isto devem ser previstos cabos com comprimento suficiente para alcançar o datashow e o amplificador de som. É melhor assim do que ele ficar dizendo "Próximo" para algum ajudante que geralmente é o primeiro que dorme na palestra.

Hora de laser. Na impossibilidade de o palestrante fazer a mudança dos slides, deve ser providenciado um equipamento de projeção com controle remoto sem fio ou um operador que tomou bastante café e seja inteligente o suficiente para a mudança dos slides. Um recurso é o palestrante usar um apontador laser e combinar previamente com o operador um local oculto do público para onde ele apontará o laser quando quiser trocar o slide.

A turma do gargarejo. Para eventos presenciais as recepcionistas devem encaminhar os participantes para as primeiras fileiras. A distância ocasionada por assentos vazios entre o palestrante e a platéia prejudica bastante o sucesso da palestra e impede que haja interação. Isso também evita que o público retardatário distraia quem chegou antes, ao procurar assento nas primeiras fileiras.

Som na caixa. É aconselhável que haja música ambiente antes da palestra (mais alto) e depois (mais baixo), de preferência jazz instrumental com ritmo alegre. O ritmo vai ajudar a definir o humor do público durante o evento. Não exagere, porém, tocando samba-enredo ou passando um vídeo tão interessante antes de começar a palestra que o público venha a pedir para o palestrante esperar acabar o filme.

Otimizando a apresentação. Ao apresentar o palestrante, evite exagerar nos adjetivos para não criar uma falsa expectativa. Dê preferência a este modelo que costumo sugerir para meus clientes. Ele diz:

Convidamos hoje Mario Persona para falar sobre [ tema ]. Mario Persona é autor de vários livros e consultor de estratégias de comunicação e marketing. Mario Persona é convidado com freqüência para falar de temas ligados a negócios, marketing e desenvolvimento pessoal e profissional em empresas e universidades. Com vocês, para falar sobre [ tema ]: Mario Persona!

Agora, a dica mais importante. Para não ter o trabalho de alterar o modelo que sugeri, convide o mesmo palestrante para seu evento.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


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Mensagem a um executivo - Mario Persona

 


https://youtu.be/A0ZhbUlp5fM

Olá Zé. Doutor José?! Deixe disso, cara, hoje vou tratá-lo de Zé mesmo, pois um dia você foi só isso. Quero falar com você. Pode me dar cinco minutos? Dois? Sei que não tem tempo, que está correndo feito louco, mas o que quero dizer é importante para você não ficar assim mesmo — louco — quando a correria acabar.

É verdade, a correria acaba, nada dura para sempre. Quantas vezes nos últimos dias você ouviu a frase "Não trabalha mais aqui" ao ligar para alguém? Antigamente não tinha disso, né Zé? Pois é, novos tempos. Seja humilde. Muito daquilo que você hoje pensa que tem não é seu. É da companhia ou do posto que ocupa.

Sabe o Júnior, aquele cheio de MBA disso e MBA daquilo, que fala até mandarim? Olha, Zé, é melhor você emagrecer porque seu paletó vai para ele. Se um dia você já foi o rei da cocada preta, hoje não é mais. Isso mudou. Deu cem dias sem resultados e vai ter alguém atendendo seu telefone e dizendo: "Não trabalha mais aqui".

Tudo bem que você vai sair como quem sai e não como quem é saído. Executivos são jogados na rua com tapete vermelho, até para resguardar a imagem da empresa. Vão dizer que saiu para desenvolver projetos próprios (leia-se "procurar emprego"), buscar novos desafios ("pesquisar nos classificados") e se dedicar mais à família ("viver à custa da patroa").

Por isso, comece a baixar a bola porque ela é emprestada. Devagar com seu próprio andor, porque você é de barro. Pode nem ser você quem está na reta, mas seu chefe ou o patrão. Empresários também são demitidos pelo mercado.

Quando jovem, negociei com um empresário a renovação do aluguel de um imóvel que pertencia a ele, ocupado pelo banco para o qual eu trabalhava. Muito dinheiro. Fumando charuto e entediado com a negociação na enorme mesa, numa enorme sala do enorme prédio de sua enorme empresa, ele baforou em minha cara a conclusão nada humilde:

— Vá lá, fica por isso mesmo. Esse aluguel eu gasto num final de semana só de combustível para meu iate.

Na certa seu iate também era enorme e devia beber muito porque poucos anos depois ele não tinha nem iate, nem empresa, nem charuto. Só fumaça. Os tempos são outros, por isso seja humilde, Zé. Como assim, seja humilde?

Bem, fuja do perfil do executivo que vi uma vez jogando golfe em um resort. Prepotente, altivo, desses que culpam tudo e todos por seu próprio fracasso, era um show à parte. Chamava a atenção com seus chiliques, lançando impropérios contra a grama e culpando-a por não conseguir acertar o buraco. Isso foi há alguns anos. Não sei se ele comeu grama melhor desde então.

É provável que você não se aposente como executivo. Pouca gente vai conseguir. Acostume-se com a ideia de não estar no próximo congresso para ver o Peter Drucker e outros gurus. Mesmo porque até o grande Drucker passou, como todos passam e um dia você vai passar também. Por isso, seja humilde.
Aprenda desde já a viver como um simples mortal — pegar fila em banco, andar de ônibus, comer pastel de feira. Pode não ter o glamour com o qual está acostumado, mas é menos estressante do que a vida que você leva agora. Por sinal, lembre-se de deixar o glamour na portaria junto com o crachá. Pertence à empresa.

Não se iluda com sua rede de relacionamentos. Muitos são amigos apenas da donzela que viaja de Zepelim. Quando o balão se vai, você volta a ser para eles a Geni da música do Chico. Nessas horas vale até ligar para todos aqueles cartões de executivos que você guardou na gaveta para quando precisasse. Mas não se espante se, na maioria das vezes, só ouvir a mesma frase: "Não trabalha mais aqui".

Comece a desenvolver um "Plano B", um "Plano C" e não se acanhe se precisar chegar a um "Plano Z". Quanto mais opções, melhor. Você pode acabar virando consultor ou até palestrante como eu. Você não imagina o currículo que têm as pessoas que me procuram atrás de dicas de como palestrar, achando que esta é a aposentadoria padrão de todo executivo. Fico até constrangido de pensar que possa ter algo a ensinar para pessoas com uma bagagem tão maior que a minha.

Faça já um diagnóstico de suas competências. Existe algo mais que saiba fazer? Sei lá, cozinhar, costurar, fazer de conta que sabe fazer contas. São coisas úteis para quando você abrir seu restaurante por quilo, sua confecção de biquínis ou começar a fazer em casa a contabilidade de seus novos clientes. Tudo bem, pode se apresentar como "chef", "designer de moda" ou "personal finance coach", quando fizer a declaração do imposto de renda dos amigos em seu "home-office". Pode usar esses termos, se quiser acrescentar algum glamour às suas novas atividades. Mas se não souber fazer nada, seja humilde e volte a estudar.

Tem mais uma coisa: dê atenção à sua família, se tiver sobrado uma. Geralmente esposa, filhos e irmãos são tudo o que resta quando a idade vem e a carreira vai, levando junto os amigos de copo e coffee-break. Isso quando resta, se você não os tratou como resto e cuspiu no prato nativo enquanto comia em louça chinesa com os talheres de prata da ingrata empresa.

Quer mais? Sabe aquela menina que poderia ser sua neta e chama você de gato, que diz que grisalhos são charmosos e carecas têm um brilho todo especial? Não acredite nela. Ninguém saliva tanto assim por um prato de pelancas. Ela está mais interessada numa viuvez bem-sucedida com pensão garantida, do que em ficar passeando em alguma estância de água mineral de braços dados com um tiozinho decrépito.

Não tenho mais dicas para dar. Ah, sim! Mais uma: seja humilde. Eu já disse? Tudo bem, é a idade. Por falar nisso, qual é a sua? Sabe que isso influi, não sabe? Pois é. Por falar em humildade, conheço empresários e executivos que já trabalham assim, dando exemplo de humildade e fazendo do ato de servir uma característica de sua imagem profissional.

Durante o almoço em um evento, o dono do grupo de indústrias que me contratou interrompeu o que estava fazendo para me cumprimentar. O que estava fazendo? Servindo as mesas. Outro, presidente de uma multinacional, agarrou minha mala e carregou-a até meu carro no estacionamento do hotel, diante dos olhares atônitos dos que seguem suas ordens no dia-a-dia da empresa. Executivos malas vão desaparecer. Os que não têm vergonha de carregá-las irão sobreviver. Portanto, seja humilde.
Eu sei, eu já disse.


Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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