Se eu recebesse um real para cada vez que digo "A TERRA É REDONDA" ou "O HOMEM FOI À LUA" estaria rico. É que sempre que publico algo assim nas redes sociais recebo uma enxurrada de mensagens de pessoas querendo me corrigir, algumas educadamente como ...

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Eu conspiro, tu conspiras, eles acreditam. and more...

Eu conspiro, tu conspiras, eles acreditam.

Se eu recebesse um real para cada vez que digo "A TERRA É REDONDA" ou "O HOMEM FOI À LUA" estaria rico. É que sempre que publico algo assim nas redes sociais recebo uma enxurrada de mensagens de pessoas querendo me corrigir, algumas educadamente como quem fala com um doente mental que não deve ser contrariado, outras iradas me esconjurando e amaldiçoando, como se eu fizesse parte de alguma seita diabólica. Ou de uma conspiração dos que são contra as teorias conspiratórias

Em uma entrevista que assisti um cientista comentou que as pessoas que acreditam em teorias conspiratórias foram educadas num sistema de ensino fast-food, tipo comida pronta, e ficaram preguiçosas demais para pesquisar. Então engolem qualquer coisa que jogam em suas bocas, sem mastigar, porque foram condicionadas a fazer provas de múltipla escolha nas quais basta polvilhar um punhado de "X" e, com sorte, ser aprovado.

Já visitei a NASA, as plataformas de lançamentos na Flórida, morei na casa do engenheiro que projetou as baterias do Projeto Apollo, li muito a respeito de astronáutica, estudei navegação aérea para tirar brevê de piloto e tomei muito caldo de galinha com bom senso, que minha mãe fazia. Por isso sei que a teoria mais conspiratória de todas seria fazer acreditar que dezenas de governos e milhares de pessoas combinaram e investiram bilhões só para pessoas acreditarem que viagens espaciais são um trabalho de CGI ou imagens geradas por computador.

Existe uma tendência de julgarmos as coisas pela tecnologia que conhecemos, daí essa incredulidade toda de se achar que tenhamos sido enganados por manipulações de imagens e filmagens de maquetes, para o caso do pouso na Lua, por exemplo. Você já viu filmes de ficção científica das décadas anteriores ao computador? Então deve saber que seria impossível criar filmes e fotos com a qualidade do que é feito hoje no computador. Mas, é claro, existe 2001 Space Odyssey, de Stephen Kubrick, feito um ano antes do pouso na Lua e as teorias dizem que Stanley Kubrick teria sido contratado para filmar um pouso falso. O melhor é deixar Vivian Kubrick, filha do cineasta, responder como fez em seu Twitter, chamando essa teoria de MENTIRA GROTESCA:



Não é só a NASA, mas centenas de empresas que estão envolvidas com viagens espaciais. Na Wikipedia você encontra uma lista das sondas e espaçonaves que já pousaram em planetas, luas e meteoros. Não só da NASA, mas soviéticas, britânicas, japonesas, chinesas, israelenses, indianas e conjuntas, como as da European Space Agency. A lista inclui apenas as que pousaram ou bateram de propósito, mas não as que falharam ao pousar, como a sonda israelense que tentou pousar na Lua e caiu. Esse número tende a aumentar com o ingresso da iniciativa privada nessa corrida. Pesquise por "List of private spaceflight companies" e a Wikipedia vai mostrar quanta gente estaria supostamente fazendo de conta que trabalha em lançamentos e veículos espaciais.

Mesmo com tantas fontes para se pesquisar tem gente que prefere acreditar numa teoria conspiratória criada por algum adolescente que mora com a mãe e aplica photoshop em fotos que encontra na Web. Onde ficam o bom senso e os volumes de pesquisa e desenvolvimento, inclusive de países que eram inimigos entre si e jamais iriam "combinar" uma falsa ida ao espaço? Se todo o material existente sobre o assunto não convencer posso passar a receita da canja de galinha com bom senso que minha mãe me fazia tomar.

Mas vi uma teoria conspiratória que quase me convenceu: a de que existiriam pessoas e agências (tipo CIA) criando teorias conspiratórias ou fake-news só para estudarem sua proliferação e usarem isso em espionagem e política para manipular multidões. Esta sim faz sentido. É o que no mundo da espionagem é chamado de "desinformação", quando notícias falsas são divulgadas misturadas a fatos verdadeiros e depois observado seu impacto na sociedade e a capacidade que existe de manipulação de mentes.

Acho que já deu para perceber que fake-news e teorias conspiratórias são armas potentes quando se sabe usá-las para ganhar eleições ou destruir reputações de pessoas e produtos. Não seja mais um inocente útil nas mãos dos verdadeiros manipuladores, pois tem muita gente por aí querendo que você acredite em qualquer coisa. Até naquela mensagem da menininha doente que vai ganhar dinheiro da Microsoft se você curtir ou compartilhar.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br

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Nem tudo que reluz é ouro

JOVEM UNIVERSITÁRIO, dezenove anos, simpático, condução própria, procura garota para relacionamento afetivo. Eu me sentia assim, quando o recepcionista do Casa Grande Hotel, no Guarujá, abriu a porta de meu Corcel 74 para eu descer. A garota, colega de faculdade que passava as férias na mesma cidade, estava hospedada ali e aceitara meu convite para uma tarde juntos. Meu sonho se transformava em realidade.

Nem bem a recepção anunciara minha chegada, vi um membro da tropa de batedores marchando em minha direção. Era a mãe da garota, vindo fazer o reconhecimento do terreno. Logo percebi que nem a minha melhor calça boca-de-sino, e nem camisa justa ou o meio tubo de desodorante que gastei, iriam ajudar naquele momento. O negócio era apelar.

— Qual o seu nome? — começou o interrogatório.

— Mario Buzolin — respondi, limitando-me ao meu sobrenome do meio e fazendo cara de quem perguntava se tinha sido aprovado. Eu sabia que eles eram judeus e achei que a terminação “in” do sobrenome materno poderia soar mais familiar naquela hora do quebra-gelo. Felizmente a garota chegou antes da próxima pergunta. Teria ficado evidente que meu estratagema de tentar parecer o que não era tinha a solidez de uma geleia. O “Buzolin” de meu sobrenome não passava de um sobrenome italiano cujo “i” do final deve ter caído de algum ramo da árvore genealógica.

Empresas também costumam usar de estratagemas para parecerem o que não são, e a tecnologia tem ajudado. Antigamente era preciso investimento para se criar uma imagem respeitável. Sede própria, catálogos impressos, telefonistas, assessoria de imprensa, publicidade. Ficar conhecido no bairro já custava caro. Visto no mundo, impensável.

E hoje? Bem, com a tecnologia da informação ficou fácil trabalhar em casa. Qualquer um pode imprimir catálogos com qualidade fotográfica, ter uma telefonista digital, fachada na Internet e recursos de comunicação para falar até com Marte se lá tiver alguém para atender. Com pouco investimento é possível criar uma empresa que é um sonho. Literalmente falando. Ou um pesadelo, realmente falando.

Se por um lado a tecnologia esticou a perna dos negócios, por outro ela também encurtou a perna da mentira. Mentira agora tem a perna mais curta ainda. Por sua vez, os clientes têm igual poder tecnológico para recomendar ou arrasar, só que multiplicado pelo número dos que são ludibriados, infinitamente maior do que o das empresas que ludibriam.

Credibilidade é fruto de habilidade edificada sobre o alicerce da verdade. Quando visito um cliente, quero conhecer que lastro de realidade existe por trás de sua capacidade. Meu avô já dizia que nem tudo que reluz é ouro e nem todo sapato é de couro. Se eu não ficar convencido, será que consigo convencer alguém com a estratégia de comunicação que ele quer contratar?

Consigo, mas não devo. Quando jovem, trabalhei em vendas para uma empresa cujo catálogo estava visivelmente ultrapassado. As fotos eram de pessoas da década de quarenta, mas a empresa não era tão velha assim. Descobri depois que era tudo forjado, até a foto da fábrica, que nunca existiu. Solidez e tradição, só mesmo na aparência dos impressos.

Alguém poderia chamar isso de marketing, mas não é. O verdadeiro marketing procura dourar, não a pílula da ilusão, mas os resultados de uma solução. É todo um processo que visa criar valor para o cliente. Em minha profissão corro esse risco de parecer o que não sou. Por me valer das letras, da oratória e da tecnologia da informação, há quem pense que sei mais do que conheço. A tentação de me deixar embalar nesse regaço é grande, e às vezes me pego cofiando a barba de uma sabedoria emprestada. Como a barba do irmão daquela garota.

Pois é, além da mãe, ela tinha um irmão. Garotas despojadas de acessórios e vínculos você só encontra no cinema. Na vida real elas saem de fábrica com sogras, irmãos e cunhados. E foi na fila do cinema que eu e a garota acabamos encontrando seu irmão, o jovem que eu sonhava ter como cunhado. Ele estava ali tentando entrar para assistir um filme proibido para menores. Sim, ele era menor.

Tão menor, que parecia precoce com aquela barba por fazer, cujos pelos, quando vistos de perto, pareciam ter crescido nas mais impossíveis direções. A irmã não quis se privar do prazer de me contar qual era o estratagema do garoto. Sua barba era, na verdade, uma mistura de cola e pó de barba retirado do barbeador do pai. Segundo o garoto, entrar no cinema com aquele disfarce era uma barbada. Acreditei.

E você, acreditaria se eu dissesse que a garota estava apaixonada? Estava. Ela transpirava isso por todos os poros. Seus olhos verdes brilhavam com o colírio da emoção. Sua pele, qual nuvem flagrada por tentar esconder o sol da paixão, denunciava um rubor só comparado à cor ruiva artificial de seus cabelos. E quando falava... Ah! Faltam-me palavras para descrever.

Talvez porque falar tenha sido o que ela mais fez. O tempo todo que esteve comigo ela só ficou falando de um tal fulano que conhecera uns dias antes e a pedira em namoro. O que eu achava? Sugeri que aceitasse. Devia ser um cara legal.

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Parem as maquinas!

Quando eu era criança, se alguém me perguntasse qual seria o futuro do jornal eu saberia responder: o açougue. É que na época eu achava que jornal eram aquelas folhas enormes que entravam em nossa casa de duas maneiras: para meu pai ler ou embrulhando a carne.

Hoje sei que jornal não é a plataforma que ora transporta as letras, ora a carne. Ainda que o jornal de papel desapareça, o papel do jornal não vai desaparecer, pois o jornal é o blog da História. É nele que Dona História registra diariamente aquilo que depois será estudado na academia. Ou não.

Há alguns anos um grande jornal pediu uma proposta para uma palestra. Quando a palavra e-reader começava a pipocar, permitindo a leitura confortável de todo o conteúdo da Web, os diretores do jornal queriam conhecer minha opinião sobre o impacto das novas tecnologias em seu negócio. Enviei a eles uma proposta contendo os tópicos abaixo em formato de seções de jornal, que podem servir de axiomas para o futuro da mídia impressa. Fique você ciente de que escrevi mais nas entrelinhas do que nas linhas.

NEGÓCIOS — O negócio do jornal não é imprimir papel, mas causar impressões com sua investigação, análise e interpretação dos fatos.

POLÍTICA — A velocidade dos fatos é maior do que a que o jornal consegue alcançar. Presidentes já não convocam a imprensa para coletivas; eles convocam as redes sociais. Você fica sabendo antes da imprensa acessando Twitter, Whatsapp, Youtube, Facebook porque é ali que o político agora conta o que vai fazer.

VEÍCULOS — O fabricante do Cadillac não conseguia entender a razão da queda nas vendas, até perceber que os donos de Cadillac estavam morrendo.

HORÓSCOPO — As expressões “the future of the radio”, “the future of the television” e “the future of the newspaper” apareciam, respectivamente, 30 mil, 90 mil e 990 mil vezes quando fiz uma busca no Google (na edição deste livro os números subiram para 11,3 milhões, 6,9 milhões e 12,2 milhões). Quando tem muita gente olhando para o telhado é porque sua gata deve ter subido lá.

POLÍCIA — É difícil competir com a lesão ao vivo e em cores dos meios multimídia. Finalmente o jornal conseguiu se livrar do estigma da máxima que diz que “se não sangrar, não tem audiência”. Pior para ele.

TEEN — A geração atual aprendeu a ler no videogame, mas quando a pesquisa pergunta ao jovem se ele lê jornal de papel ele diz que sim com pinta de intelectual. Pesquisados são mentirosos e pesquisas são ingênuas.

ECONOMIA — A verba de propaganda foi tão pulverizada que agora a briga por ela é entre o conglomerado com 10 mil funcionários e o blog do Zezinho, aquele seu sobrinho.

ESPORTES — O consumo de banda e computação móvel cresce. É covardia deixar seus caracteres de tinta correr na mesma raia dos pixels multimídia.

CLASSIFICADOS — Os classificados foram desclassificados e reclassificados por serviços como Google, Craiglist, Buscapé, MercadoLivre etc. O balcão de anúncios também pode ser encontrado à venda lá.

TURISMO — Insistir que a informação continue limitada ao papel é obrigar os aviões a viajarem em trilhos. Questão de bom senso na logística de distribuição.

CULTURA — Na era do Creative Commons e da remixagem digital, a tecnologia desbanca a autoria individual, quando genérica e sem sal, e cria colchas de retalhos de informação em cores mais vibrantes.

OBITUÁRIO — Vale para o jornal impresso o que vale para o rei: “O jornal morreu. Viva o jornal!”.
Você deve estar curioso para saber se aquele jornal gostou da proposta. Provavelmente não, porque não me contratou. Às vezes você precisa dizer aquilo que seu cliente quer ouvir, às vezes não. Existe uma tendência perigosa no ser humano de buscar por opiniões que não deem trombada em sua opinião formada.

Quando pediram a proposta jornal já havia gasto milhões com a renovação de seus equipamentos seguindo a diretriz da consultoria que contratou que concluiu que os jovens só não estavam lendo mais jornais porque não eram coloridos. Perguntado sobre a razão do desinteresse da nova geração em comprar jornais, um especialista que presta serviços para grandes conglomerados respondeu: “Deve ser porque os jovens estão lendo o jornal comprado pelos pais”. Ingenuidade ou conveniência? Não, eu não sei informar se foi esse especialista, ou o outro, da consultoria, que o jornal contratou para a palestra.

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Memoria como areia nos dentes

Algumas formas de memória são tão poderosas que nos acompanham por toda a vida. A memória musical, por exemplo, que os pesquisadores descobriram ser mais forte até que os casos mais graves do Mal de Alzheimer. Pessoas que já não respondem a estímulos de qualquer natureza, saem de sua letargia quando escutam a música que marcou sua infância ou juventude.

Memória olfativa também é poderosíssima. Às vezes caminhando pelo centro da cidade sou levado de repente para minha adolescência nos Estados Unidos, onde vivi algum tempo como estudante de intercâmbio. Ali sentia com frequência um aroma que não era comum no Brasil, uma receita de ketchup e mostarda usada em algumas lanchonetes nos hambúrgueres.

Só para você se situar, em minha adolescência o Brasil estava na era pré-McDonald's e os sanduíches aqui eram o bauru (pão francês, bife, queijo e tomate), o americano (pão francês, queijo, presunto, ovo e tomate) e o misto quente (pão de forma com queijo e presunto). As receitas podiam variar dependendo do lugar. Havia também o cachorro quente, que não vinha com batata palha ou outros ingredientes, além do pão com mortadela. Minha mãe fazia às vezes hambúrguer em casa, mas não me lembro de encontrar isso em lanchonetes.

Outra memória poderosa é a gustativa, que escreve em nosso paladar momentos únicos do passado que nunca desaparecem. O gosto do refrigerante Dr. Pepper, por exemplo, é um que me leva de volta à adolescência em terras americanas, e cada vez que piso nos Estados Unidos preciso tomar um Dr. Pepper para me sentir com a missão comprida.

Mas um sabor que me faz viajar ainda mais distante no passado eu acabei de sentir agora mesmo, quando enfiei na boca um punhado de biscoitos de polvilho do tipo doce (o salgado é o mais comum). Meus pais compravam o biscoito doce na praia de Santos, quando íamos de férias e ficávamos hospedados na Pensão Paulista.

Imagem retirada do site Novo Milênio e publicada na revista santista Flama de dezembro de 1943
(imagem do acervo do historiador Waldir Rueda)
Na areia eu costumava estar equipado já com um baldinho de lata (comprado na própria pensão) que era vendido cheio de balas e vinha também com uma pazinha de madeira. Às vezes ganhava também um barquinho de madeira que vinha igualmente cheio de balas condicionadas em papel celofane. Sou do tempo em que brinquedos de plástico ainda não existiam. Então quando aparecia o vendedor de biscoito eu queria o doce, e a assinatura permaneceu em meu cérebro desde então.

Meu pai, minha irmã e eu na praia de José Menino, Santos.
Mastigar um biscoito me leva a sentir, não só o gosto da infância, mas também garanto a você que sou capaz de ouvir o barulho das ondas, a brisa do mar e o cheiro de maresia. Está tudo no pacote da experiência gustativa. Só falta uma coisa, e você pode não acreditar, mas até hoje mastigo com cuidado esperando ouvir o "Créc" de algum grão de areia nos dentes. Agora não acontece, mas sempre acontecia, principalmente com um menino comendo biscoito de polvilho com as mãos cheias da areia de um castelo que eu acreditava que duraria para sempre.

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O fim do livro

Enquanto a tecnologia vai se intrometendo em todos os cantos de nossa vida, alguns já começam a prefaciar que o livro, como o conhecemos, logo será uma página virada. Terá cumprido seu papel. Sem poder resistir aos meios eletrônicos de edição, armazenagem e leitura da informação.


No passado, a publicação de um livro dava o maior rolo. Para ler era preciso desenrolar a pele de cabra, toda tatuada de caracteres. Livros que não tinham índice, pois não passavam da página um. Cuja produção era caríssima. Um trabalho duro para autores e escribas. Os editores só enrolavam.

Alguns capítulos depois, os chineses e japoneses do sexto século inventaram a imprensa. Mas não a assessoria de imprensa. Se a tivessem inventado, teriam evitado que a fama pela descoberta ficasse com Gutenberg, quando imprimiu 180 exemplares da Bíblia nove séculos mais tarde.

Antes dele, uma Bíblia levava dez meses para ser copiada à mão, a quatrocentos mil dólares o exemplar. Um dinheiro difícil, antes de inventarem a América. A tecnologia reduziu o custo e popularizou o acesso à informação, e ajudou a abalar a estrutura de poder. Victor Hugo, em "Notre Dame de Paris", história contemporânea à invenção da imprensa, descreve o sacerdote Claude Frollo apontando para um livro e, em seguida, para as torres da catedral. E sentenciando: "Isto matará aquilo."

Roma foi a primeira a tentar preservar a ignorância a qualquer custo. Ao menos fora dos contrafortes de seus mosteiros. Muito antes de pensar em lutar pelos sem-terra, engajou-se na luta pelos sem-livro e sem-Bíblia. Para que permanecessem assim.

O livro era um perigo. Transportava idéias como estopim aceso. Um problema para quem detinha o poder. Políticos inflamavam multidões. Músicos popularizavam suas canções. Cientistas multiplicavam descobertas. Comunistas inventavam o livro descartável. A cada celebridade que caía em desgraça no partido, os livros escolares eram reimpressos com nomes a menos para se decorar.

Com o computador e a Internet, a própria leitura mudou. Uma nova geração de leitores aprendeu a ler na tela, a uma velocidade maior à dos mais versados mestres educados no papel. O hipertexto inaugurou a leitura não-linear, paralela, reversa e imprevisível. O ler ficou mais parecido com o pensar. Os olhos passaram a fazer a sinapse prévia da informação usando neurônios alheios. Uma geração insensível a qualquer tato romântico para com o papel, já começou a substituir os moribundos amantes de alfarrábios como eu. Sem sequer saber o que isto significa.

Mas a revolução não está na troca do papel pelo plástico. Ou da tinta por partículas polarizadas. A revolução está nas entrelinhas. No passado o livro não era um produto, mas um meio de se divulgar idéias. Governos e instituições subsidiavam seu custo para cumprir seus objetivos. A Bíblia inglesa "King James" leva até hoje o nome do rei que a patrocinou. E ainda é assim. Governos e instituições subsidiam o papel, as gráficas, os autores e editoras. Quem quer ver a informação circular paga mais. Quem quer ler paga menos. Ou não paga nada.

Este modelo permanecerá, não importa qual seja a plataforma que transporte as letras. E ganhará novos mecenas em causa própria, graças ao custo zero de reprodução que a Internet permitiu. Uma multidão de novos talentos, gerados pela leitura não-linear e alimentados pelo hipertexto. Revolucionários, para os quais o que vale é publicar e influenciar. Milhões de Mao Tse-tung, cada um acreditando que o seu livrinho é o vermelho.

Mas o epílogo pode vir para o livro convencional, sem direito a errata. Um produto cada vez menos comprado, e cada vez mais copiado. Por uma geração acostumada a sorver informação grátis na rede. Como já acontece com a música, e acontecerá com o cinema, o cenário não é dos melhores para a indústria do livro. Que já desistiu de vender enciclopédia na porta de quem consegue mais informação clicando nas janelas.

Tudo deve mudar muito rápido e não consigo enxergar muitas páginas de perspectiva para o negócio do livro como o conhecemos hoje. Não existe um manuscrito certo do modelo de mercado que deve prevalecer. Dos que já vi — vendas "à la Stephen King", criptografia dos textos, travas e cadeados mil — nenhum me convenceu. Por isso, não me pergunte como o livro irá terminar. Não vou contar. Detesto pessoas que contam o fim do livro.

Mario Persona é palestrante de comunicação, marketing e desenvolvimento profissional. Seus serviços, livros, textos e entrevistas podem ser encontrados em www.mariopersona.com.br


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