Não existe "Dia Internacional da Menina e do Machão"? Então acabei de instituir. Vem antes do "Dia Internacional da Mulher" porque para que uma mulher seja mulher ela precisa ser menina. Se não for menina, não continuará sendo mulher. E o machão, ...

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Dia Internacional da Menina e do Machao

Não existe "Dia Internacional da Menina e do Machão"? Então acabei de instituir. Vem antes do "Dia Internacional da Mulher" porque para que uma mulher seja mulher ela precisa ser menina. Se não for menina, não continuará sendo mulher. E o machão, onde entra? Em lugar nenhum. Ele sai, porque hoje o dia é dela, e ele odeia isso.

Sabe como eu sei que mulheres são meninas? Porque observei uma. Que idade tinha? Cavalheiros jamais se lembram da idade, só a data de aniversário. Vi quando pegou uma Barbie esquecida num sofá. O que fez? Deu uma arrumadinha nos cabelos da boneca. Meninas de todas as idades continuam fazendo assim. Continuam sendo meninas, mulheres e mães.

Como foi Ruth Handler, que só inventou a Barbie porque viu a filha Barbara brincando com bonecas adultas de papel. "Menina quer ser mulher", pensou ela com seu lado menina antes de colonizar o mundo com mais de um bilhão de bonecas que mulheres de todas as cores, idades e tamanhos continuaram pegando e arrumando os cabelos. Enquanto as feministas arrancavam os próprios.

Barbie foi o protótipo do sonho de modelo que existe em cada menina. Ao contrário do que os machões pensam sobre modelos — profissão que virou resposta-padrão de algumas belas sem profissão — mulheres podem ser lindas e inteligentes como a austríaca Hedwig Eva Maria Kiesler. Não sabe quem é? Nome artístico Hedy Lamarr. Ainda não? Aquela atriz de Hollywood que faz tocar seu celular. Se você não se lembra da Dalila do épico de Cecil B. DeMille deve ser mais novo. Mas talvez tenha visto a embalagem do CorelDraw 8. É a cara dela.



Pois é, foi atuando em Hollywood durante a 2ª Guerra que ela inventou um sistema de alteração contínua das frequências de rádio para guiar torpedos e evitar a interceptação pelo inimigo. A tecnologia é hoje utilizada nas bombas inteligentes e em ligações via celular, sejam seus donos inteligentes ou não. Hedy Lamarr era inteligente o suficiente para saber ser bela:

"Qualquer garota pode ser glamorosa. Basta ficar imóvel e parecer burra." — disse ela.

Infelizmente é o que algumas fazem, belas ou não. Gastam a vida imóveis e inúteis, como limpador de pára-brisa quebrado em dia de chuva. Por sinal, também inventado por uma mulher, Mary Anderson. Você, machão, que acha que mulher é sinônimo de burrice, experimente dirigir na chuva sem limpador. Você teria inventado? Sei... e colocado do lado de dentro do pára-brisa, não é? Só para responder com uma piada tão velha quanto aquela que você gosta de contar.

Que piada? Aquela da loira que usou Liquid Paper na tela do computador. Você conta como se soubesse o que é Liquid Paper, não é machão? Quem sabe escrever conhece. Também foi invenção de uma mulher, Bessie Nesmith, secretária que ofereceu aos homens de gravata preta e camisa branca da IBM seu invento. Como eles torceram o nariz e acharam a coisa inútil, ela vendeu os direitos para a Gillette por 47,5 milhões de dólares. Tudo isso enquanto machões e meninas imóveis faziam pose por aí. Depois dessa vai ter machão querendo me matar. Vou andar de colete à prova de balas feito de Kevlar, material inventado por Stephanie Louise Kwolek. Exatamente, uma mulher também é responsável por segurar as balas antes que atinjam o coração de soldados e policiais.

As mulheres inventaram também outras coisas para a alegria dos homens. Eu disse 'outras coisas', machão, estou falando de objetos, invenções... Para os que gostam de ajudar a mulher com o bebê — você nunca fez isso, não é machão? — mas se atrapalham com as dobras da fralda e o alfinete de segurança, Marion Donovan inventou a fralda descartável. E para quem quer manter distância da pia da cozinha, e geralmente consegue por causa da barriga, Josephine Cochran inventou a máquina de lavar louças. Viva a mulher!

Acho que vou parar por aqui. Em minhas pesquisas encontrei outras invenções femininas na química, física e biologia, mas é melhor não arriscar tentar explicar e comentar porque eu mesmo não entendi direito para que serviam essas invenções. Talvez por ser homem. Mas acho que já deu para mostrar minha admiração pelas mulheres e também o que acho dos Rambos que existem por aí, que humilham e espancam. Só no Brasil, a cada minuto quatro Rambos provam no rosto de uma mulher que sabem dar coices e patadas.

Houaiss define "machão" como "aquele que tem coragem, que é capaz de enfrentar qualquer empreendimento difícil e perigoso; valentão diz-se de ou homem agressivamente viril, que se mostra excessivamente orgulhoso de sua condição masculina". O que o Rambo não sabe é que, no campo de batalha, o brado mais comum na boca dos bravos moribundos é "Mamãe!".

* * * * * 

"Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida.

Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão, levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços. Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite: estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca.

Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado. Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura. Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra. Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores.

A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro. Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua. Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça. Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva. Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente!
Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada."


Rei Lemuel, contando o que aprendera com sua mãe e citado em 950 a.c. pelo Rei Salomão no Livro de Provérbios cap. 31.
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O planeta de onde eu vim

Quando pequenos, meus filhos foram criados em outro planeta chamado "Trinta Anos Atrás". Orbitando em torno de um sol semelhante ao que aquece o planeta Terra, as condições de temperatura e pressão lá eram bem diferentes. O clima era mais ameno e seus habitantes sofriam menos pressão, vivendo em uma atmosfera rarefeita de poluentes morais, degradantes e mortais.

O planeta onde meus filhos foram criados era bem primitivo. Lá não existia celular, Internet, touch screen, e-book ou rede social. Porém já era mais avançado que o planeta onde meus pais me criaram, o planeta "Sessenta Anos Atrás". Lá o leite era de vaca em garrafas de vidro e o plástico era novidade. Meus brinquedos eram de madeira ou lata, eram movidos a pilhas de calorias e o controle remoto era conhecido como "barbante".

Quando eu era pequeno a distância cultural entre mim e meus pais era insignificante. As músicas eram praticamente as mesmas, e roupas e calçados infantis eram simplesmente miniaturas da moda usada pelos adultos, que tínhamos orgulho de imitar. Já tínhamos TV no planeta "Sessenta Anos Atrás", mas não em cores, e a programação começava às cinco da tarde. Antes disso eu brincava com outras crianças no mundo real, pois não existia o virtual. Às nove da noite todos os dois canais de TV tocavam o jingle dos cobertores Parahyba: "Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar..." e a criançada desaparecia da sala antes que a cinta começasse a cantar.

As coisas não mudaram muito do planeta em que fui criado para o planeta de meus filhos. Nos dois planetas e-mails, conhecidos como "cartas", não eram enviadas com um clique do dedo, mas com uma lambida da língua num papelzinho chamado "selo". Câmeras fotográficas precisavam de filme, uma tira de acetato enrolada num cartucho que era depois levado a um laboratório para produzir fotos de papel. Por serem caras, ninguém gastava filme com gatos ou esmalte de unha, só com filhos e parentes para guardar num álbum. O meu tinha capa de madeira envernizada. As fotos só podiam ser compartilhadas pessoalmente ou via correio, e nudes só eram encontrados em revistas para adultos e produzidas por adultos, nunca por crianças em frente ao espelho.

Tanto no planeta em que fui criado, como no de meus filhos, meninos ganhavam sapatinhos azuis ao nascer, e meninas rosa. Não havia "Ideologia de Gênero" e as crianças não corriam o risco de trombar com um adulto do sexo oposto num banheiro unissex. As escolas só podiam ser ocupadas por estudantes em dias de aula e quando tocava o sinal, e quem mandava na sala de aula era o professor. No intervalo as crianças brincavam de aviãozinho, mas só correndo de braços esticados e desarmadas. Nos dois planetas, no meu e no de meus filhos, as crianças saíam da escola sabendo ler e escrever em um idioma que chamávamos de "Língua Portuguesa".

Para viajar usava-se um GPS feito de papel e conhecido como "mapa". Não era preciso recarregar, só dobrar. Em casa tocávamos música num player chamado "vitrola", e os arquivos mp3 eram baixados de lojas reais e já gravados em CDs pretos de vinil. Havia CDs de diferentes tamanhos: "LP", "Compacto Simples" ou "Compacto Duplo".

No planeta de meus filhos os discos riscavam, mas não se quebravam com facilidade, uma evolução se comparados aos do planeta em que nasci, feitos de um material frágil como vidro. Um dia inesquecível foi quando saí pela casa carregando a coleção de música italiana de meu pai numa pilha de discos 78 rpm. Quando ele me viu, gritou para eu largar. Naquele planeta obedecíamos aos pais, e eu larguei.

No planeta de meus filhos já era possível ouvir música no carro e na rua usando fitas K7. Como o player era grande demais, quase ninguém era visto levando um a tiracolo, e a perda da audição das crianças só começava quando chegavam à terceira idade.

Os auditórios –  que na Terra são chamados de "igrejas neo-pentecostais"  – lá eram chamados de "cinema" ou "teatro", e você só pagava para entrar. Uma vez dentro, ninguém pedia dinheiro. As crianças eram levadas àqueles lugares só quando havia uma programação adequada, pois existia uma filtragem chamada "Censura" e a idade era verificada na porta. Ao contrário do que ocorre hoje na Terra, era impossível uma criança assistir pornô no telefone. Estes eram usados só para telefonar.

As crianças do planeta onde cresci eram esqueléticas, leves e ágeis. Eu tinha uma Tia Bete, mas nunca ouvi de algum menino que tivesse diabetes. Refrigerante só em festa de aniversário de primo rico. Na TV não passava UFC – Ultimate Fighting Championship  – porque tínhamos TPS  – Te Pego na Saída  – ao vivo todos os dias na saída da escola. Quem perdia não ficava recalcado e nem vitimizado. Só chorava e pronto, porque ainda não tinha sido inventado o bullying.

Os "games" eram jogados em praças, ruas e quintais usando pernas e braços, e não apenas dedos. No planeta em que meus filhos foram criados já existiam consoles de videogame, mas para jogar com um amiguinho era preciso ele vir à sua casa ou você ir à casa dele. Ninguém jogava ou namorava sem se encontrar pessoalmente, e não existiam emoticons, emojis ou smileys para demonstrar sentimentos. Todos usavam expressões faciais.

Hoje quando visito a casa de minha filha aqui no planeta Terra, chego a achar que ela exagera em seus receios, limites e regras para proteger meus netos da atmosfera poluída que sai dos canos de descarga da Internet, TV a cabo e redes sociais. Aí ela precisa me lembrar de que não sou deste planeta, e não sou mesmo. Dou meus palpites mas confesso que eu nem saberia com criar uma criança hoje no planeta Terra. Afinal, fui criado no planeta "Sessenta Anos Atrás" e criei meus filhos no mundo de "Trinta Anos Atrás". Quando pequenos, tenros e vulneráveis, nem eu e nem eles ficamos expostos a uma tamanha carga de radiação moral, degradante e mortal como a que envenena o planeta Terra atual.

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Pode conter de tudo um pouco

Sou madrugador, do tipo que prepara café solúvel com água de chuveiro no quarto do hotel bem antes de o café da manhã começar a ser servido. De férias na casa de meu filho nos EUA, não quis repetir o desastre de ontem, quando tentei usar sua parafernália de barista para moer, ferver e coar num embolo de pressão. O melhor que consegui foi um café crocante.

Então comprei uns sachês de café solúvel barato e preparei antes do nascer do sol. O aroma? Sabe quando alguém levanta o pé para examinar a sola do sapato? O sabor? Que sabor?

Só então olhei a embalagem e descobri a nova jogada comercial. Com a desculpa de estar avisando alérgicos que a embalagem pode conter outras coisas, por ter sido produzido onde manipulam outras coisas, agora virou um vale-tudo de ingredientes.Imagine um consumidor ligando para o SAC:

"A senhora encontrou uma asa de barata? Nós avisamos na embalagem que poderia conter outras coisas. Em nossa fábrica manipulamos baratas".

Este que comprei diz na embalagem que pode conter ovos, leite, soja e trigo, o que já é suficiente para os sensíveis ao glúten passarem longe. Também diz que é fabricado com engenharia genética. Deixe-me adivinhar... gene de barata? Se for gene humano deveriam ao menos especificar se foi extraído da axila esquerda ou direita.

Não estranhe não, pois uma empresa do Kansas nos Estados Unidos já produz arroz geneticamente modificado usando genes tirados do fígado humano. Ainda não é para fazer risoto, mas para obter substâncias para serem usadas na indústria farmacêutica. Mas não se espante se daqui a pouco seu sanduíche de peito de frango verter leite ou o alface xingar ao ser mastigado. Do modo como a engenharia genética evolui, logo teremos embalagens com o alerta: "CONTÉM GLÚTEO".



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Como publicar seu livro

Às vezes recebo mensagens pelo Twitter, Facebook ou WhatsApp e quando digo para a pessoa dar seu endereço de e-mail para eu enviar uma resposta mais elaborada, é cada vez mais comum a resposta: "Não tenho e-mail". Se você for um autor como eu é melhor ir se acostumando com a ideia de que as pessoas estão se comunicando de forma diferente da comunicação de um passado até recente, e também consumindo informação de maneiras que não estavam no "manual do escritor" de há alguns anos. E nem sempre essa maneira é o livro tangível de papel. Este está cada vez mais entrando na categoria do "Era uma vez...".

Antes de investir seu dinheiro em publicar seu livro da maneira usual — pois muitas editoras oferecem isso e realmente ajudam você a gastar sua poupança e ficar com quinhentos exemplares mofando no armário — entenda o que mudou e as opções disponíveis para o escritor. Antes é bom lembrar que o grande segredo de um livro não está em tê-lo publicado, mas em ter sido publicado por uma editora que possua uma distribuidora cuja capilaridade alcance o público. Editoras publicam, mas nem sempre distribuem, o que fará seu livro permanecer no limbo dos autores desconhecidos. A autopublicação não irá resolver seu problema de distribuição, por isso será preciso também arregaçar as mangas se quiser promover sua obra para que seja lida por mais gente além de sua mãe e sua tia.

Meus primeiros livros foram publicados por editoras convencionais porque um editor viu neles potencial. Mas com a venda da editora para um conglomerado, e a falência de outra que havia publicado um de meus títulos, eles ficara sem reedições. O que fiz? Resgatei meus direitos autorais e publiquei eu mesmo, em formato e-book e também impresso sob demanda. Custo? Zero, se não considerar meu trabalho de editoração. As capas eu terceirizei para designers que trabalham na web. Somando com os primeiros seis livros que tinham sido publicados por editoras convencionais, hoje totalizo 25 obras que são publicadas principalmente nestes sites:

Smashwords
https://www.smashwords.com/profile/view/mpersona

A Smashwords publica apenas e-books tem uma rede de distribuição que inclui a Apple (iBooks em 51 países), Barnes & Noble (US e UK), Scribd, Oyster, Kobo, Yuzu, Blio e Inktera (ex-Page Foundry), OverDrive (maior plataforma de bibliotecas do mundo atendendo a 20 mil bibliotecas), Baker & Taylor Axis 360, Tolino, Gardners (Askews & Holts e Browns Books for Students), e Odilo (2,100 bibliotecas públicas na América do Norte e do Sul, além de Europa).

Clube de Autores
http://clubedeautores.com.br/authors/574

O Clube de Autores é uma plataforma de autopublicação que publica e distribui livros tanto no formato e-book como impresso sob demanda.

Se chegou até aqui certamente irá querer saber se já consegui comprar um iate, uma mansão na Flórida e um jato executivo com o dinheiro que ganhei com meus livros. Vou deixar você tentando adivinhar enquanto conto uma anedota que ilustra bem como é a vida de um autor que publica seus próprios livros. Era uma vez um que se encontrou com um amigo e declarou, todo feliz: "Publiquei meu primeiro livro! Parei de procurar emprego e decidi viver só de escrever!". "Parabéns!" — disse o amigo — "E já vendeu muito?". "Sim, já vendi quase tudo: casa, carro, bicicleta, geladeira..."

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"Fuzzylando" a qualidade total

Em 1965, Lotfi Zadeh publicava seu trabalho exaltando as virtudes da imprecisão. Enquanto Aristóteles se debatia no túmulo, e seus discípulos sete palmos acima, Zadeh inaugurava o fim da intolerância à confusão e lançava as bases da "fuzzy logic", ou "lógica difusa". O cientista mostrava que a vida é bela e possível com suas imperfeições. Que não são imperfeições, mas características de sistemas complexos demais para nossas cartesianas conclusões.

Numa suma leiga, a lógica "fuzzy" mostra que nem sempre é preciso uma solução precisa. É a lógica do deixa-disso, da tolerância científica. Numa compassiva formulação enuncia que nem tudo deve ser preto-no-branco ou escreveu-não-leu-o-pau-comeu. O mundo não vem abaixo se não for oito-ou-oitenta. Ao invés de se basear em números exatos, Lotfi traduziu matematicamente a inexatidão da linguagem. À pergunta do garçom, "Bem ou mal passado?", simplesmente respondeu: "Mais ou menos".

Se o abre-fecha da água na máquina de lavar não precisa da precisão do abre-fecha do trem de pouso de um Boeing, bota lógica "fuzzy" no chip de controle dela. A máquina de lavar não fica com menos qualidade por conta da tolerância. Até a vida funciona com lógica "fuzzy". Nem sempre as coisas são claras, precisas, exatas. Se fossem, seria uma chatice. Tente viver com alguém que gosta de tudo milimetricamente arrumado, segue normas até para escovar os dentes e tem chiliques com o desvio de simetria do quadro na parede. Orson Welles escreveu que a Itália, com seus Medicis, assassinatos e corrupção, nos legou Michelângelo. A Suíça, com paz, ordem e um monte de vacas, nos legou o relógio cuco. Entende o que eu digo? Se entender mais ou menos, também está bom. É assim que funciona.

O excesso de normas pode criar um ambiente chato na empresa. Inibe o fluxo de idéias, engessa a criatividade. Alguma tolerância à desordem é o agridoce que dá um sabor exótico à vida, como a que pulula na periferia. Numa colônia, os corais do centro são estáveis, sólidos, lindos. E mortos. É na periferia que ocorre a atividade criadora dos pólipos. São feios – o nome lembra tumor – mas são vivos. A paixão criativa precisa de alguma desordem para explodir. Com você foi assim. Seus pais não se preocuparam em manter os lençóis esticados ou os travesseiros alinhados num padrão iso-nove-mil. Esqueceram as regrinhas um-dois-três dos livros de educação sexual escritos por padres. Deixaram rolar, e aí está você. Vivo.

Numa aula de educação sexual vi o "especialista" explicar tecnicamente o coito, enquanto a garotada babava com figuras da genitália. Foi interrompido por um professor, bem no estilo"senta que eu ensino". E ensinou. Que seus pais e avós nunca foram à escola aprender a pôr os pingos nos "is". No entanto, produziram gente a sair pelo ladrão. Falou do amor, do respeito mútuo, da tolerância, da paixão. Menos sexual, mais educação; menos técnica, mais emoção. Falou ao coração, não à razão, pois falou do amor de qualidade, sembenchmarking nem análise crítica. Que dispensa controle estatístico de processo, tantos são os desvios-padrão e ações corretivas. Imensurável, imponderável, posto que indescritível. Uma qualidade que é total por natureza. Dá para explicar? Nem precisa, porque não é preciso.

Se viu um pintor de paleta limpa e cores milimetricamente separadas, não viu um artista. É no pincel sujo, na sobreposição das tintas, na confusão de cores, que ele enxerga sua obra. Do aparente caos tira sua criação. Qualidade total? Ouvi falar. Mas qualidade que não permite uma zona de criação, difusa e desequilibrada, seca rápido como gesso. Transforma pessoas em robôs, como no antigo seriado "Perdidos no Espaço""Não tem registro! Não tem registro", dizia o robô diante do imprevisto. Minha amiga foi atendida por um robô assim numa butique de shopping.

Quando o filho terminou o refrigerante, a mãe quis jogar o copo no lixo. Não podia. O lixo da loja era só para papel. Reciclável, politicamente correto. Copos sujos, só no lixo da praça de alimentação. A cliente devia ir até lá. Criou-se um impasse. Ela não sabia se comprava ali mesmo ou se devia procurar outro lixo. Foi só depois de muita insistência que a vendedora concordou em transgredir a norma de qualidade para o lixo. E, com uma certa má vontade apertando os lábios, atendeu a cliente. No padrão "fuzzy" de qualidade quase total.

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